3. REPORTAGENS setembro 2013

1. CAPA  O ARQUIVO X BRASILEIRO
2. CAPA  ACHO QUE VI UM ET
3. TECNOLOGIA  O TREM DE 1200 KM/H
4. INTERNET  PODCAST BRASIL
5. SADE  POR UM FIO
6. MUNDO  PARA ONDE VAI QUEM NO TEM PARA ONDE IR
7. ZOOM  RECESSO ESCOLAR
8. COMIDA  100% BOVINO
9. RELIGIO  A NOVA CRUZADA

1. CAPA  O ARQUIVO X BRASILEIRO
ABRIMOS OS ARQUIVOS SECRETOS DA AERONUTICA, COM TODOS OS REGISTROS DE APARIES DE OBJETOS NO-IDENTIFICADOS NOS CUS DO BRASIL ENTRE 1952 E 2010, VEJA O QUE OS MILITARES SABEM SOBRE O ASSUNTO  E O QUE NINGUM CONSEGUE EXPLICAR.
Reportagem / Salvador Nogueira
Ilustrao) Otvio Silveira
Design  Fabrcio Miranda
Edio  Bruno Garattoni

     Sim. OVNIs existem. No so produto da imaginao das pessoas.  isso o que indicam os registros oficiais da Fora Area Brasileira, que desde 1952 mantm arquivos confidenciais catalogando todos os avistamentos de objetos voadores no-identificados nos cus do Pas. So mais de 2.600 pginas de documentos, que recentemente comearam a ser liberados pelos militares  e hoje esto em Braslia, no Arquivo Nacional, no qual a SUPER pde consult-los. O episdio do suboficial Soares faz parte do lote mais recente de documentos. O que torna esse caso interessante  que um avistamento igualmente sinistro havia sido feito apenas dois dias antes. 
s 8h20, um avio da empresa area Gol voava a cerca de 135 km de Manaus. Ele estava subindo, elevando sua altitude de 23 mil ps (cerca de 7.600 metros) para 37 mil ps (12.300 metros) quando algo estranho aconteceu. O piloto e o copiloto avistaram uma luz muito forte se deslocando em alta velocidade, acima e  frente de sua aeronave. A ocorrncia foi registrada no Cindacta 4 como "trfego hotel"  eufemismo aeronutico que significa OVNI. Estariam os dois avistamentos, to prximos no espao e no tempo, de alguma forma ligados? Quem, ou o qu, estaria por trs da movimentao de objetos no-identificados na regio amaznica? Os registros da Aeronutica esto cheios de casos misteriosos e sem explicao. So relatos impressionantes, inclusive pela credibilidade  seus autores no so pessoas comuns, que sempre podem estar imaginando coisas. Os relatos so feitos por pilotos, controladores de voo e oficiais militares, pessoas que tm treinamento para identificar e reconhecer todos os fenmenos atmosfricos normais. Se mesmo eles acham que h algo de anormal,  porque h.

EXPLICVEIS E INEXPLICVEIS
     No dia 21 de agosto de 2003, s 22h30, o piloto do voo Varig Log 9063 consultou o Centro de Controle de rea de Curitiba sobre um objeto no-identificado, que voava  direita do avio, um pouco mais alto que  a aeronave. "Ele est aqui, est parado agora, ele est acompanhando a gente, est parado aparentemente, na subida ele estava vermelho, todo vermelho, a ele foi mudando, branco, vermelho, branco, vermelho, agora ele est todo branco, entendeu?", disse o piloto, nitidamente desconfortvel com a situao. Os aviadores, sejam civis ou militares, no gostam de reportar esse tipo de avistamento  embora sejam instrudos pelo controle de trfego areo a faz-lo. Algum na base (no fica claro se  o centro de controle em Curitiba) responde de forma bem-humorada: " Colorado!" (referncia ao Internacional, que usa uniforme branco e vermelho). O objeto continua acompanhando o avio da Varig, e o piloto parece arrependido de ter relatado o ocorrido. "Afirmativo, pode... pode ser um monte de coisa, pode ser um planeta, uma estrela, qualquer coisa, o que pegou foi a mudana de cor aqui, s isso." Mas o relato viria a ser confirmado por outro piloto, do voo Varig 8630, que s 23h14 tambm informou o avistamento. ", o que eu avisto aqui pa... parece uma estrela." No radar, no havia nada. 
     As aparies de OVNIs so relativamente numerosas no Brasil. Em 2010, ltimo ano a ter as informaes liberadas, a Aeronutica registrou seis casos. Um dos mais impressionantes ocorreu no dia 23 de setembro. O comandante de outro avio da Gol viu um objeto com brilho aparente duas vezes maior do que Vnus (astro mais brilhante no cu, fora o Sol e a Lua), voando de sudoeste para nordeste, enquanto rumava para Braslia. "Estvamos perto de Palmas, vindo de Belm, quando vimos esse objeto acima de ns", conta o piloto, que prefere no ter o nome divulgado. "Eram mais ou menos 4h45 da manh, ento ainda estava escuro. Ele estava voando bem alto e bem acima (do avio), indo realmente muito rpido. Fez uma curva quando passou por cima de ns e atravessou o cu." A bordo da aeronave, duas outras pessoas viram o OVNI: o copiloto e uma comissria de bordo, que foi chamada  cabine. "Os passageiros no tinham como ver, porque estava acima do ngulo de viso das janelas laterais", relata o piloto. Em menos de um minuto, o objeto j havia sumido de vista. Em contato com os controladores de voo, os aviadores foram informados de que no havia nada no radar. Em mais de 30 anos de voo, o piloto nunca havia visto nada parecido. Alguns dias depois, ele recebeu um telefonema da Fora Area, perguntando sobre o avistamento (at ento, ele sequer sabia que a Aeronutica estudava o assunto). "Na hora [do avistamento], o sentimento que temos  de intensa curiosidade", relata, descartando a hiptese de uma ocorrncia natural trivial. "Fenmeno natural que atravessa o cu de ponta a ponta e faz uma curva? Acho que no." 
     Procurada pela SUPER, a Gol no quis se manifestar. A Tam respondeu dizendo no ter registro de situaes que envolvam OVNIs. 
 comum que o objeto no-identificado se movimente em trajetria e/ou velocidade estranhas. Em julho de 2010, controladores de voo do Aeroporto Ministro Petrolino Portela, em Teresina (Piau), viram um objeto circular, prateado e vermelho, se deslocar rapidamente em ziguezague, a baixa altitude (apenas 1.500 metros), por aproximadamente 20 minutos. Em 9 de maio de 2007, dois avies da Tam, ambos sados de Braslia, reportaram  torre o avistamento de uma luz muito forte  direita das aeronaves. Inicialmente, eles pensaram que fosse outra aeronave, mas o Cindacta 1 no registrou no radar o objeto  que acompanhou os avies por dez minutos antes de sumir.

A NOITE DOS DISCOS VOADORES
     Nos arquivos da Aeronutica, chama a ateno um documento que analisa os acontecimentos de 19 de maio de 1986  data que ficou conhecida como a "noite dos discos voadores". Em 2004, o Comdabra (Comando de Defesa Aeroespacial Brasileiro) produziu um documento que resume as concluses de relatrio assinado em 1986 pelo brigadeiro-do-ar Jos Pessoa Cavalcanti de Albuquerque, ento comandante interino do rgo. O documento apresenta a descrio oficial, firme e segura, do que transcorreu naquela noite  em que o Brasil parece ter sido visitado por vrios OVNIs. 
s 23h15, a torre de controle de So Jos dos Campos, no interior de So Paulo, avistou luzes amarelas, verdes e laranja se deslocando sobre a cidade. Seu radar detectou objetos no-identificados, nas posies correspondentes a essas luzes. O fenmeno tambm foi percebido no ar. O coronel Ozires Silva, ento recm-nomeado presidente da Petrobras, voava no avio Xingu PT-MBZ e avistou as luzes, que pareciam estrelas grandes e vermelhas. "Se fosse confiar nas minhas observaes, diria ter visto um astro, mas no tinha resposta do porqu de aquele corpo aparecer no radar de Braslia", disse Silva, ao comentar o caso, em sua autobiografia Decolagem de um Sonho. Corpos celestes no emitem sinais de radar. 
     Por volta de 1h, comearam a aparecer objetos no-identificados no radar de Anpolis, Gois. Os sinais de radar indicam a direo e a velocidade de deslocamento dos objetos. A Aeronutica decidiu agir.  1h34, um caa decolou da Base Area de Santa Cruz, no Rio de Janeiro. O avio foi em direo a So Jos dos Campos para investigar do que se tratava. No caminho, o piloto viu uma luz branca voando abaixo do avio, que estava a aproximadamente 5 mil metros de altitude. O objeto comeou a subir e se posicionou dez graus acima do caa. O piloto decidiu perseguir a luz, que subiu at 10 mil metros e por um momento mudou de cor, de branca para vermelha, depois verde e novamente branca. O radar do caa registrou o objeto, que estava entre 16 e 18 km de distncia do avio e voava na direo do mar. A perseguio continuou at que o avio atingiu o ponto de no-retorno (em que no teria mais combustvel para voltar), e o piloto desistiu. Mas os militares no. 
     A 1h48, um caa decolou da Base Area de Anpolis para perseguir objetos detectados naquela regio. O piloto chegou a registrar um OVNI pelo radar, mas no conseguiu aproximao visual. Era uma perseguio absolutamente desleal. O jato voava em velocidade supersnica (acima de 1.100 km/h), mas o objeto tinha um nvel de agilidade incompatvel com aeronaves terrestres. Voava em zigue-zague, ora se aproximava, ora se afastava, superando com facilidade a velocidade do caa. O piloto desistiu. 
     No Rio de Janeiro, a mobilizao continuou.  1h50, mais um caa decolou em direo a So Jos dos Campos. O piloto viu uma luz vermelha, na mesma posio captada pelos radares em solo. Perseguiu-a por alguns minutos, sem conseguir se aproximar, at que ela se apagou. O mais impressionante  ou aterrador   o que aconteceu a seguir. Simultaneamente, apareceram nada menos do que 13 objetos no-identificados no radar. Estavam todos atrs do avio. O piloto fez uma curva de 180 graus para tentar observ-los, mas no conseguiu. Os objetos sumiram. Mais duas aeronaves decolaram de Anpolis, mas no obtiveram qualquer tipo de contato. Os caas foram desistindo, e pousando. s 3h30, os militares deram a operao por encerrada. 
     O relatrio da Aeronutica apresenta as seguintes concluses. Sobre os objetos no-identificados, diz que eles so capazes de "produo de ecos [sinais] de radar (...), variao de velocidade de voo subsnico at supersnico, bem como manuteno de voo pairado, variao de altitudes inferiores a 5.000 ps (1.500 m) at 40.000 ps (12.000 m), emisso de luminosidade nas cores branca, verde, vermelho e outras vezes no apresentando indicao luminosa, capacidade de acelerao e desacelerao de modo brusco, capacidade de efetuar curvas com raios constantes, bem como com raios indefinidos". Ou seja, um conjunto de caractersticas que no existe em nenhum veculo construdo pelo ser humano. 
     De forma cautelosa, como  tpico dos documentos militares, o relatrio termina da seguinte maneira: "Como concluso dos fatos constantes observados, em quase todas as apresentaes, este Comando  de parecer que os fenmenos so slidos e refletem de certa forma inteligncias, pela capacidade de acompanhar e manter distncia dos observadores como tambm voar em formao, no forosamente tripulados." Ateno para esta frase: "Refletem de certa forma inteligncias". A Fora Area Brasileira est dizendo, com todas as letras, que no se trata de fenmeno natural  e que alguma inteligncia, ou seja, alguma criatura ou entidade inteligente,  responsvel pelos objetos no-identificados. 
     Nem sempre  assim. Em muitos casos, o que parece um OVNI  apenas um fenmeno atmosfrico normal. Fenmenos como a reflexo ionosfrica (em que raios de luz ou rdio batem na alta atmosfera e voltam ao cho) podem explicar, ao mesmo tempo, ecos no radar e a iluso de objetos brilhantes, explica o astrnomo americano William Alschuler, da Universidade da Califrnia em Santa Cruz. Outros episdios, em que o piloto reporta um objeto luminoso que acompanha os movimentos de seu avio, podem ser explicados pela reflexo de luz em cristais de gelo suspensos na atmosfera. Outros casos tm explicaes banais, como reflexo da luz solar ou lunar no interior de uma cmera fotogrfica, ou mesmo a confuso com o planeta Vnus (que  to brilhante que pode ser confundido com um OVNI). 
     Menos comuns  e mais impressionantes  so o fogo-de-santelmo e os raios globulares, fenmenos atmosfricos de natureza eltrica. O primeiro  uma descarga eletroluminescente causada pela ionizao do ar. O segundo  um tipo raro de relmpago, que surge nas nuvens e viaja para o cho. Tem formato esfrico, costuma ser vermelho-alaranjado e tem certa estabilidade, podendo pairar e permanecer visvel durante vrios minutos. Tambm produz um zumbido. Ou seja, no  difcil confundi-lo com um OVNI. 
     Mas a diversidade de contatos e movimentos registrados na noite de 1986, e outros similares vistos em outras partes do mundo,  difcil de classificar como fenmeno atmosfrico. "No estamos mais prximos de resolver ou compreender relatos assim do que 50 anos atrs", diz Alschuler. 

A OPERAO PRATO 
     Se a imagem de pilotos de caa brasileiros perseguindo OVNIs no  suficientemente contundente, h ainda nos registros liberados pela Fora Area alguns sinais de uma movimentao ainda maior, que teria ocorrido entre 1977 e 1978 na Amaznia.  a chamada Operao Prato. Nos arquivos, h um relatrio de 160 pginas produzido pelo I Comar (Comando Areo Regional) chamado "Registros de Observaes de OVNI". Ele foi produzido por um grupo de oficiais da Fora Area liderados pelo capito Uyrang Bolivar Soares Nogueira de Hollanda Lima, que foi enviado para investigar ocorrncias reportadas pela populao do municpio de Colares, localizado na baa de Maraj, no Par. Os pescadores da regio disseram que estavam sendo importunados por luzes misteriosas que, por vezes, os atacavam, tirando sangue e provocando um estado de paralisia. Apelidaram o fenmeno de "chupa-chupa", e pressionaram o prefeito da cidade para que pedisse ajuda aos militares. O povo da regio estava em estado de pavor, acreditando que as luzes eram obra do diabo ou algo do tipo. O capito Hollanda e seus oficiais tinham uma dupla misso: acalmar a populao e investigar a natureza das luzes reportadas  se  que elas de fato existiam. 
     Munidos de cmeras fotogrficas e filmadoras, eles comearam anotando minuciosamente as descries de avistamentos feitos pela populao. Nos primeiros dias, chegaram a ver luzes ao longe, mas nada que convencesse o lder da operao de que fosse algo anormal. Contudo, aps cerca de dois meses, os avistamentos comearam a se tornar mais frequentes. Em entrevista concedida em 1997, pouco antes de sua morte e aposentado da Fora Area, Hollanda admitiu: acreditava que aquilo era mesmo um fenmeno paranormal e inexplicvel. 
     A equipe da Fora Area demorou para comear a ver os OVNIs. Isso abre espao para uma hiptese: talvez os moradores estivessem sob efeito de alguma substncia alucingena, algo que tivesse contaminado a regio (e tambm os militares aps algum tempo). Mas, no. Isso s seria possvel se a alucinao tambm contaminasse cmeras fotogrficas. Mais de 500 fotos foram tiradas das tais luzes, muitas das quais figuram no relatrio da Fora Area  infelizmente, somente em preto e branco. Hollanda disse ter gravado vdeos, mas eles teriam sido confiscados pela Aeronutica. 
     De toda forma, o relatrio liberado contm mais de 130 registros de observaes, inclusive de pousos dos supostos objetos, realizados entre 2 de setembro de 1977 e 28 de novembro de 1978. Vrios desses avistamentos foram testemunhados e fotografados pelos prprios oficiais. Mas os estudiosos de OVNIs demonstram descontentamento com o material, pois acreditam que h muito mais  segundo eles, a Operao Prato teria produzido mais de mil pginas de documentao. A Fora Area responde dizendo que o Comdabra, atual responsvel pelo arquivamento desse material, liberou tudo que tinha sob a rubrica OVNI.  difcil saber quem est com a razo. Mas  fcil concluir que algo muito estranho aconteceu em Colares naquele ano. 

A INVESTIGAO 
     A Aeronutica chegou a ter um rgo especfico para investigar casos do tipo. Ele se chamava Sioani (Sistema de Investigao de Objetos Areos No Identificados), e reunia no s pessoal da Fora Area como grupos civis ligados  ufologia. O Sioani funcionou sigilosamente entre 1969 e 1972, quando mais de cem casos foram registrados e investigados, at ser extinto pelo governo. Os relatrios produzidos pelo grupo, que circulavam internamente na Aeronutica, chamam a ateno pelo cuidado. Quem dizia que tinha visto algo precisava passar por exame psiquitrico  para ver se a pessoa estava imaginando coisas. Nem todos passavam por esse teste, o que colocava em dvida a credibilidade de seu avistamento. Contudo, todos eram devidamente catalogados, acompanhados de desenhos dos supostos veculos observados. Todos os documentos eram estritamente confidenciais. 
     Mesmo tendo passado dcadas registrando casos de OVNIs, e comeado a liberar os documentos que produziu, a Fora Area ainda reluta em falar a respeito. Procurada pela SUPER, enviou uma nota em que diz apenas: "O Comando da Aeronutica no dispe de estrutura especializada para realizar investigaes cientficas a respeito desse tipo de registro, o que impede a instituio de apresentar qualquer parecer sobre esses acontecimentos". Uma anlise da documentao mostra que a Fora Area Brasileira sempre viu o assunto com seriedade e preocupao. Nos arquivos, h um documento despachado em 28 de fevereiro de 1989 por Octavio Jlio Moreira Lima, ento ministro da Aeronutica, definindo os procedimentos que deveriam ser adotados para registrar e avaliar todos os avistamentos de objetos no-identificados em territrio nacional, inclusive a necessidade de sigilo absoluto. Mas o medo dos militares no era alarmar a populao. Era outro. 
     "Foroso  reconhecer que algo de estranho vem preocupando as atenes do grande pblico, das autoridades e do mundo cientfico, frente s frequentes incurses de OVNI na atmosfera terrestre", diz o ministro no documento. "Em que pesem os argumentos de que tais fenmenos  da forma pela qual so descritos  aberram das leis fsicas e dos conhecimentos cientficos do mundo atual, impe-se-nos o dever de registr-los, document-los e analis-los sistematicamente. Por vrias razes, a Aeronutica no deve se alhear do problema, embora evitando explic-los sem base cientfica ou expor-se ao ridculo." 
     Ou seja: o receio era virar motivo de piada. Esse medo j havia sido manifestado antes, justamente na poca da Operao Prato, em circular datada de 25 de julho de 1978 e assinada pelo chefe do Estado-Maior da Aeronutica, tenente brigadeiro-do-ar Mrio Paglioli de Lucena. "Visando resguardar a posio do Ministrio da Aeronutica no tocante ao assunto, altamente polmico, a coleta e a remessa de dados exigem muita discrio, no devendo ser feitos comentrios que possibilitem explorao por parte da imprensa em geral, fato que at poderia levar ao ridculo a nossa Corporao." 
     Esse medo tambm passa pela cabea dos pilotos que enxergam coisas estranhas no cu. Na maior parte dos casos, eles preferem silenciar a reportar qualquer coisa. A prpria Aeronutica estima que apenas 10% dos avistamentos sejam relatados. Ou seja, h muito mais coisas voando pelos cus do que at mesmo as mais altas patentes de nossas Foras Armadas sabem.  

FORA DOS REGISTROS 
     Um bom exemplo de caso no registrado pelos militares foi protagonizado pelo astronauta brasileiro Marcos Pontes, quando ele era piloto de prova da Fora Area no Centro Tcnico Aeroespacial, em So Jos dos Campos (SP), entre 1995 e 1996. "Eu estava voltando de um voo noturno de T-27, de treinamento de aproximaes por instrumento", conta. "Fiz algumas aproximaes ali em Guaratinguet e retornava para outros procedimentos e pouso em So Jos dos Campos." Durante o voo, a torre de controle perguntou a Pontes se ele conseguia ver uma  forte luz, parada, sobre a serra, na direo de Bragana Paulista. "Eu vi a luz e, do meu ponto de vista, parecia o farol de um avio na aproximao para pouso na pista de So Jos. Perguntei se no era isso. O controle respondeu que no tinha nenhum trfego e que a luz estava ali j h uns bons 10 minutos." 
     Pontes apontou o T-27 na direo do objeto luminoso. Sem radar a bordo da aeronave, ele seguiu pelo visual. Passou vrios minutos perseguindo a luz, sem conseguir aproximao, at que o avio ficou com pouco combustvel e ele teve de desistir. A luz sumiu em seguida. No h qualquer meno ao caso nos arquivos da Fora Area, mas Pontes descarta a hiptese de acobertamento. "No registrei nada quando retornei, e acho que a torre tambm no. Deve ser por isso que no h registro", afirma. Casos como esse, sem registro, provavelmente existem aos montes  e so ainda mais numerosos que os casos oficiais. 
     Um objeto voador no-identificado no  necessariamente um veculo de origem aliengena. Mas  algo que, em certos casos, no pode ser explicado como fenmeno natural  nem como qualquer coisa que esteja ao alcance da cincia e da tecnologia humanas. S uma coisa  absolutamente certa. H coisas muito estranhas acontecendo nos cus do Brasil. E a Fora Area sabe disso.

SEGUNDA-FEIRA, 15 DE NOVEMBRO DE 2010 AEROPORTO EDUARDO GOMES, MANAUS 9:55 PM 
     Segundona de feriado prolongado. O suboficial Soares provavelmente preferiria estar descansando. Mas ele estava de planto, trabalhando na torre de controle do aeroporto. Um olho no radar, outro nas janelas, at que algo chamou sua ateno no cu. Ao longe, l no alto, uma leve trilha de condensao se formava, embora fosse muito difcil enxergar o objeto que estava produzindo a mancha que riscava o cu. Como controlador de trfego areo, Soares estava mais do que acostumado a observar os diferentes rastros que as aeronaves deixam no ar. S que aquilo parecia diferente. 
     Ele pegou um binculo e observou. No, no era um avio. Na ponta da trilha de condensao havia um objeto metlico, aparentemente grande e escuro. Voava mais alto do que os avies de carreira e era maior do que um Boeing 747. O mais estranho era o formato do objeto  quase como duas asas soltas no espao, formando uma espcie de V. 
     Soares mostrou o objeto aos dois operadores que estavam com ele na torre, alm do meteorologista que tambm estava l. Depois de 15 minutos, o objeto sumiu. s 22h05, seguindo o procedimento padro da Aeronutica, Soares reportou o avistamento ao Cindacta 4, um dos quatro Centros Integrados de Defesa Area e Controle de Trfego Areo. Estava aberto mais um registro no Arquivo X brasileiro.

AVISTAMENTOS PELO MUNDO
     A maioria dos governos, em algum momento, investigou OVNIs. Os pioneiros foram os EUA, cuja principal iniciativa foi o chamado Projeto Bluebook, nos anos 60, que catalogou mais de 12 mil casos de avistamentos  701 dos quais no puderam ser explicados por fenmenos naturais. Os documentos foram liberados, mas os uflogos acreditam que o governo ainda mantenha informaes em sigilo. Na Frana, a investigao  feita pela CNES, a agncia espacial do pas, que j registrou cerca de 6 mil casos (dos quais 14% sem explicao). Os relatrios no falam em aliens, mas cientistas envolvidos neles j deram declaraes pblicas admitindo essa possibilidade. No Reino Unido, a concluso  exatamente oposta. Um relatrio produzido pelo governo britnico em 1951, e mantido em segredo por 50 anos, concluiu que todos os avistamentos podiam ser explicados por fenmenos naturais, iluses de ptica, alucinaes ou fraudes. Entre 1996 e 2000, os ingleses fizeram novo estudo, e chegaram  mesma concluso. Na Amrica Latina, os que levam mais a srio o fenmeno so os uruguaios, cuja Fora Area tem mais de 2.100 casos catalogados, dos quais 40 permanecem sem explicao. 

OVNIS EM NMEROS
Os casos registrados pela Aeronutica entre 1952 e 2010
675 Relatrios
618 Avistamentos de OVNIs
2500 pginas de documentos

ONDE SE VIU
PELO PAS - As regies Sul, Sudeste e Centro-Oeste concentram o maior nmero de aparies.
AC 1 caso
AM 6 casos
RO 1 caso
PA 6 casos
MT 3 casos
MS 4 casos
MA 5 casos
PI 2 casos
TO 2 casos
CE 5 casos
RN 4 casos
PB 1 caso
PE 12 casos
AL 2 casos
SE 2 casos
GO 43 casos
DF 70 casos
MG 41 casos
ES 5 casos
RJ 43 casos
SP 102 casos
PR 89 casos  66 casos em Curitiba, a campe
SC 11 casos
RS 58 casos
89 ocorrncias sem lugar registrado

OS FORMATOS DOS OVNIS
13% disco
11% bola de luz
7% estrela
4% charuto
3% bola de fogo
2% triangular
23% indeterminado
22% ovoides
15% ponto luminoso

50% das ocorrncias foram presenciadas por mais de uma pessoa
A POCA QUE MAIS SE VIU
Anos 50  14 casos
Anos 60  103 casos
Anos 70  66 casos
Anos 80  88 casos
Anos 90  249 casos
Anos 90  249 casos
Anos 2000  77 casos
Sem data  21 casos


A NOITE DOS DISCOS VOADORES
Em 19 de maio de 1986, a Aeronutica registrou uma srie de objetos no-identificados no cu do Brasil  e enviou vrios caas para persegui-los. Foi o maior caso da histria do Pas.

23H15
AVISTAMENTOS PELO BARSIL
A torre de controle de So Jos dos Campos avista luzes das cores amarelo, verde e laranja se deslocando sobre a cidade. Um radar local detecta objetos voadores no-identificados.  1h da manh, um radar na regio de Anpolis, Gois, tambm comea a registrar objetos no-identificados.

1h34
O CAA E A PRESA
Um caa decola da Base Area de Santa Cruz, no Rio, em direo a So Jos dos Campos. Ao alcanar 5.200 metros, o piloto v uma luz embaixo do avio. A luz comea a subir e o piloto a persegue. Ela muda de cor  fica vermelha, verde e branca. O avio desiste por falta de combustvel.

1h48
ZIGUEZAGUEANDO
Um segundo caa decola da Base Area de Anpolis. O piloto identifica um objeto pelo radar. Mas, mesmo voando em velocidade supersnica, no consegue se aproximar dele  que voa em zigue-zague e com agilidade incompatvel com a de um avio. O caa desiste e retorna  base.

1h50
BOMBOU NO RADAR
Um terceiro caa vai para So Jos dos Campos. O piloto v uma luz vermelha e a persegue por alguns minutos at que ela se apaga. Um radar em solo detecta 13 objetos no-identificados de uma s vez. Esto atrs do avio. O piloto faz uma volta de 180 graus para tentar observ-los, mas no encontra nada. Sumiram.

2h17
FIM DE FESTA
Mais dois caas decolam da base area de Anpolis. No conseguem estabelecer nenhum tipo de contato (visual ou radar) com objetos no-identificados. s 3h30, todos os avies pousam e a perseguio  dada por encerrada.

E VARGINHA?
O caso do "ET de Varginha" no consta dos arquivos da Fora Area Brasileira, que simplesmente no o investigou. Tudo aconteceu em 20 de janeiro de 1996, na pequena cidade do interior de Minas Gerais, quando trs meninas disseram ter visto uma criatura de pele marrom e olhos avermelhados. Em paralelo, um casal teria avistado um OVNI na regio, o que fez todo mundo ligar os pontos. A populao local disse que houve movimentao anormal da PM, do Exrcito o dos Bombeiros naquele dia. Mas no h nenhum registro oficial do episdio.

PARA SABER MAIS
Leia os documentos citados nesta reportagem
http://abr.io/ovnis-brasil


2. CAPA  ACHO QUE VI UM ET
NOSSO REPRTER PASSOU TRS DIAS NO FRUM MUNDIAL DE CONTATADOS  EVENTO QUE RENE PESSOAS QUE DIZEM TER FEITO CONTATO COM ALIENGENAS. VEJA O QUE ELE DESCOBRIU.
Reportagem / Ricardo Lacerda
Design / Rafael Quick
Edio / Bruno Garattoni

Quando eu tinha 5 anos, em 1964, acordei com o Gasparzinho na beira da cama", disse a mdica paulista Mnica de Medeiros. Apesar da afirmao engraada, ningum entre as mais de 400 pessoas do auditrio deu risada. Estvamos num hotel em Cacup, na costa de Florianpolis, onde acontecia o Primeiro Frum Mundial de Contatados, um congresso de trs dias que reuniu estudiosos, curiosos e muita gente que jura ter feito algum tipo de contato com seres aliengenas. O evento foi organizado por Ademar Gevaerd, editor da revista UFO e presidente de uma ong chamada Centro Brasileiro de Pesquisas de Discos Voadores. O ciclo de palestras, que comeou em uma sexta-feira  noite e terminou no entardecer de domingo, trouxe conferencistas da Argentina, dos EUA, do Peru e da Itlia, alm de gente de diversos Estados do Brasil. 
     No discurso de abertura, Gevaerd lamentou o fato de a ufologia nem sempre ser levada a srio, mas depois comemorou a liberao de documentos da Aeronutica [veja texto anterior]. Em seguida comearam as palestras, que se sucederam em ritmo de maratona. " normal eles [aliengenas] usarem o imaginrio infantil", diz Mnica, no palco, para explicar a suposta apario  de Gasparzinho. Depois, durante um caf, ela me conta mais. Diz ter feito contatos frequentes com um gray, o tipo mais famoso de ET  aquele tpico dos filmes, de aparncia cinzenta, baixa estatura, cabea ovalada e olhos esbugalhados. Aos 13 anos, de tanto a menina falar no assunto, os pais a levaram para fazer um tratamento esprita, que teve como consequncia o sumio dos aliengenas. Eles s voltaram a se manifestar quatro dcadas depois, quando Mnica viu, segundo ela, uma humanoide de mais de dois metros de altura, com grandes olhos azuis, cabelo dourado e traje colante azul-cobalto. Foi quando ela recebeu telepaticamente a misso de divulgar na Terra a existncia do povo de Pliades. 
     Daquele dia em diante, Mnica passou a no comer carne  segundo ela, isso produz um ectoplasma mais limpo. Para se comunicar com Shellyana, a humanoide, ou com Zilok, o Gasparzinho, Mnica utiliza um chip. Ela pediu que eu encostasse o dedo atrs de sua orelha esquerda, e sentisse o que parece ser um pequeno caroo.  o suposto chip. Mnica trabalha como mdium na Casa do Consolador  uma espcie de centro religioso, mas sem religio definida, localizado na Vila Mariana, em So Paulo. "Quando cheguei l, falando de ETs, metade dos mdiuns da casa foi embora e o movimento de pessoas caiu para 2 mil por ms. Agora j voltamos s 7 mil", comemorou. Em sua apresentao, Mnica tambm falou sobre as crianas ndigo  espritos que, segundo ela, nascem em corpos com modificao gentica e cujas principais caractersticas so a inteligncia e a amorosidade. 
     Em outras palestras, vrias pessoas subiram ao palco para relatar suas experincias de "avistamento", "contatismo" e "abduo". Avistamento  o simples fato de enxergar um objeto no identificado. Contatismo  o estabelecimento de um elo com outra espcie  como o recebimento de mensagens desses seres. A abduo acontece quando algum supostamente  forado a entrar em uma nave. 
     O peruano Ass Univers  figura conhecida na cena ufolgica mundial. Naquela sexta-feira, ele estava completando 39 anos, e era o nico no evento a usar terno e gravata: quando no est avistando OVNIs no cu de Lima e arredores, tem uma bem-sucedida carreira como consultor de marketing. J o italiano Antonio Urzi, que tem a mesma idade de Ass,  estilista em Milo. Ao contrrio do peruano, no costuma deixar a esposa em casa. Dona de enigmticos olhos azuis, Simona acompanha o marido nas viagens que eles fazem mundo afora desde 2003  ano em que dizem ter filmado um disco voador pela primeira vez. Hoje, Urzi diz ter 5 mil vdeos arquivados. Ele veio ao evento contar suas experincias e capitanear uma "viglia ufolgica", atividade de observao do cu que deveria acontecer na noite de sbado no alto de um mirante  mas acabou cancelada, para decepo do pblico, por causa da chuvarada que despencou sobre a capital catarinense e no deu trgua at o dia seguinte. 
     Outras celebridades do evento foram o piloto gacho Haroldo Westendorff, que em 1996 teria avistado uma nave sobre a Lagoa dos Patos, nas proximidades de Pelotas (RS), e o ex-capito da fora area americana Robert Salas, que diz ter presenciado um episdio bizarro. Segundo ele, em 1967,  OVNIs desarmaram dez ogivas nucleares na base militar de Great Falls, nos EUA. Salas teria sido obrigado pelo governo a no comentar o assunto, mas afirmou ter at documentos comprovando o causo. J era quase meia-noite e o uflogo Marco Antonio Petit, autor de livros como UFOs  Espiritualidade e Reencarnao, no largava o microfone. Segundo ele, o Brasil tem uma distino: o registro da primeira abduo da histria foi feito aqui no Pas. Teria sido em 1957, quando o agricultor mineiro Antonio Vilas-Boas relatou que fora obrigado a fazer sexo com uma extraterrestre fmea  sim, uma eteia. O caso da transa intergalctica ganhou fama mundial entre os uflogos. 
     Bianca Oliveira  uma simptica senhora que no se cansa de contar a mesma histria h mais de 40 anos. Em 1976, ela viajava do Rio de Janeiro a Belo Horizonte num Karmann-Ghia ano 65 conduzido por Hermnio Reis, ento seu marido, quando se viu a bordo de uma nave espacial  com carro e tudo. Embora sua me tivesse falecido na antevspera do frum, Bianca fez questo de sair da pacata Santo Antnio do Descoberto, em Gois, para vir ao evento relatar sua experincia. Ela disse que ainda mantm contatos telepticos com Karran, o humanoide que a recepcionou ao longo de dois dias para l de anormais. Durante a palestra de Bianca, o silncio s era quebrado pelas risadas dela mesma. "Eu e Hermnio ramos Testemunhas de Jeov, ento ele comeou a exorcizar aquele diabo ali mesmo, e eu achava que ele ia desaparecer, mas no desaparecia". O diabo, no caso, seria o tal Karran. No incio, o casal ficou com medo do anfitrio. Mas acabaram se dando bem e conversando bastante  com a ajuda de capacetes que faziam traduo simultnea entre o portugus e o idioma aliengena. 
     Embora a prpria Bianca risse, a plateia manteve a seriedade. No houve qualquer trao de ceticismo no ar. E isso j era de se esperar. Na abertura do frum, quando Gevaerd pediu que as pessoas que j tiveram algum contato com ETs se manifestassem, mais da metade do auditrio levantou a mo. 
     
UM NOVATO NA TURMA
     Passei os trs dias do evento junto com os participantes. Vi as palestras, fiz as refeies e at dormi com eles  fiquei hospedado em uma espcie de alojamento junto com membros da chamada "equipe UFO", formada por pessoas que contribuem com a revista UFO. Entre eles havia um jovem doutorando em antropologia cujo objeto de estudo  justamente a comunidade ufolgica brasileira, um socilogo e um policial civil com experincia em percia criminal  a quem cabe, nas horas vagas, a responsabilidade de analisar fotos e vdeos envolvendo supostos OVNIs. "Mais de 95% do que chega at ns  furada", disse. O restaurante do hotel servia carne de panela, peixe a escabeche, arroz, feijo, fritas, uma saladinha acanhada e pudim de sobremesa. "Great food", opinou o americano Robert Salas. Ao lado dele, a psiquiatra Wellaide Ceccim reclamou da falta de opes para atender sua dieta vegana. 
     Na plateia, encontrei o mineiro Leonardo Martins, que est desenvolvendo uma tese de doutorado em Psicologia na USP sobre a sanidade mental de quem se diz contatado ou abduzido. Em seu mestrado, Martins comprovou que essas pessoas sofrem, sim, de transtornos mentais  mas na mesma proporo que os indivduos considerados normais. Ver discos voadores, portanto, no  necessariamente um sinnimo de loucura. 
     Mas que parece, muitas vezes parece. Ao longo dos trs dias do evento, ouvi uma teoria mais inslita do que a outra em conversas de corredor, de almoo ou de cafezinho. Por exemplo: o astronauta brasileiro Marcos Pontes s teria ido ao espao graas a um acordo entre o governo brasileiro e a Nasa. A agncia de explorao espacial dos EUA teria levado daqui dois cadveres de ETs de Varginha  um dos quais, veja s, supostamente teve a autpsia feita pelo famoso legista Badan Palhares. Mas nada supera a teoria de que a nova ordem mundial est ligada ao Clube de Bilderberg e aos Illuminati, um grupo formado por lderes que se renem todo ano secretamente na Califrnia  e tm seus corpos controlados por seres extraterrestres conhecidos como Reptilianos. "Sabe aquele seriado A Famlia Dinossauro?", me perguntou uma senhora que garante estudar o caso h mais de duas dcadas. "Sei, claro", respondi. "Pois , eles so iguaizinhos ao Dino da Silva Sauro". Como admitiu o prprio Gevaerd: "No universo da ufologia, a presena de alguns malucos faz parte da paisagem". 


3. TECNOLOGIA  O TREM DE 1200 KM/H
Ele  mais rpido do que um avio. Anda num tnel sem ar e viajaria de So Paulo ao Rio em 20 minutos. Conhea o veculo mais avanado do mundo.
Infogrfico / Vincios Abbate, Jonatan Sarmento, Paula Bustamente e Bruno Garattoni

" uma mistura de trem eltrico e Concorde". Foi assim que o americano Elon Musk apresentou ao mundo sua nova criao: o Hyperloop, um trem capaz de alcanar 1.220 km/h  duas vezes mais rpido que um trem-bala, e mais veloz at do que os avies comerciais. O Hyperloop consegue atingir essa velocidade porque anda dentro de um tnel com pouco ar e flutua sobre os trilhos, o que reduz o atrito (veja no infogrfico). Musk diz que pretende construir um prottipo nos prximos anos. A ideia foi  recebida com curiosidade e ceticismo. " uma proposta ousada, com caractersticas mais de fico cientfica do que de soluo vivel", diz o especialista em transportes Orlando Fontes Lima, da Unicamp. O principal desafio  a construo do tnel, que teria de ser extremamente precisa. Mas Musk tem crdito. Nos ltimos anos, realizou coisas consideradas economicamente inviveis  criou a Tesla, montadora que s produz carros eltricos, e a SpaceX, que realiza os prprios voos espaciais. 

TREM
14 fileiras de 2 poltronas. 15 toneladas (incluindo passageiros e carga)

TANQUE DE AR - Armazena o ar comprimido e tem duas funes: fornecer o oxignio que os passageiros iro respirar e alimentar as placas pneumticas do trem.
COMPRESSOR - Recebe e comprime o ar que entra pela turbina.  eltrico e tem 436 cavalos de potncia. Tambm tem um sistema que mantm o ar frio (pois ele esquenta ao ser comprimido).
ENTRADA DE AR - Uma turbina suga o ar que chega pela frente do trem. Alm de melhorar a aerodinmica, permitindo que o trem ande mais rpido, a turbina alimenta o compressor (veja acima).
CABINE - Cada trem levar 28 pessoas, dispostas lado a lado em 14 fileiras. Como ele tem apenas um metro de altura, as pessoas vo semideitadas, como num carro de F-1. No h condutor a bordo (mas poder haver comissrios). Cada passageiro pode levar 50 kg de bagagem.
PLACA PNEUMTICA -  uma placa retangular, com furos que soltam ar pressurizado (200 gramas de ar por segundo). Isso faz o trem flutuar a 1,3 milmetro do trilho e reduz o atrito, permitindo que atinja altas velocidades. Cada trem possui 28 dessas placas.
BATERIAS - Pesam 2.500 kg e alimentam todos os sistemas do trem. Em caso de emergncia, tm energia suficiente para manter o veculo funcionando e lev-lo at a prxima estao.
BAIXA PRESSO - O tnel tem um sistema de bombas que retiram o ar do seu interior. Ele  mantido a apenas 100 pascal de presso (mil vezes menos que ao nvel do mar). Como h pouco ar dentro do tnel, o trem sofre pouco atrito  e pode andar mais rpido.
PLACAS SOLARES - Cobrem toda a parte superior do tnel e so capazes de gerar 57 megawatts (com picos de 285 megawatts em dias ensolarados). Fornecem a energia para abastecer todo o sistema.
TNEIS - O sistema teria dois tneis: um para a ida, outro para a volta. O tnel  feito de ao com 2,3 cm de espessura. Ele  suportado por 25 mil pilastras, projetadas para resistir a terremotos e vendavais.
PILASTRAS  de 6 a 30 metros
PROPULSOR -  um conjunto de ims controlados eletronicamente, que geram campos magnticos para empurrar o trem. Quando ele est chegando ao destino, os ims mudam de polaridade  e freiam o veculo. Durante a frenagem, o sistema gera energia, que  guardada nas baterias.

MAPA DO PERCURSO
So Francisco  Los Angeles
Velocidade mxima 1220 Km/h
Tempo de acelerao e desacelerao 10 minutos
Tempo em velocidade mxima 25 minutos
Tempo total da viagem 35 minutos
Distncia total 563 km

CUSTO DO PROJETO
Segundo seus criadores, o Hyperloop custa quase dez vezes menos do que um trem-bala.
HIPERLOOP US$ 7,5 bilhes
US$ 5,4 bilhes  Tneis, pilastras e estaes de passageiros
US$ 2,1 bilhes  40 trens (US$ 54 milhes por trem)

CALIFORNIA HIGH-SPEED RAIL
Trem-bala convencional que o governo da Califrnia quer construir para ligar Los Angeles a So Francisco  US$ 68 bilhes.

ECONOMIA DE ENERGIA
Energia gasta, por passageiro, para fazer uma viagem de Los Angeles a So Francisco ( em Megajoules)
[grfico]
Carro +800
Motocicleta 1000
Avio +1000
Trem +800
Carro eltrico +200
Hiperloop -100


4. INTERNET  PODCAST BRASIL
Eles nunca estiveram na crista da onda da internet. Mas  graas ao pblico fiel, crescente e empolgado que esses programas se mantm. Mais que isso, geram escritores de sucesso, celebridades disputadas e palestrantes requisitados. Conhea o agitado universo dos podcasts brasileiros.
REPORTAGEM / Pedro Duarte
ILUSTRAO / Michell Lott
DESIGN / Paula Bustamante
EDIO / Felipe vau Deursen

Em trs anos, a quantidade de podcasts no Pas cresceu quase dez vezes. Veja ao longo, da matria os tipos mais comuns.
Tecnologia 16
Jogos 32
Literatura 7
Sries 9
Animes 10
Religio 12
Msica 17
Entretenimento 44
Esportes 10
Comportamento 41
Carreiras 19
Quadrinhos 9
Cinema 24
Atualidades 18
Humor 15

Lambda, Lambda, Lambda!", grita Alexandre Ottoni, para delrio do pblico. A referncia ao filme A Vingana dos Nerds, clssico de sesso da tarde de 1984, no   toa. Alexandre  o Jovem Nerd, um dos criadores do blog homnimo que, desde 2006, produz o maior podcast do Brasil e um dos maiores do mundo, o Nerdcast. O programa, com 347 mil downloads por episdio,  o maior responsvel por Alexandre e seu parceiro Deive Pazos, o Azaghal, serem webcelebridades. Em eventos de cultura da internet, eles tiram fotos com fs e so assediados  s vezes do jeito mais nerd possvel. "Uma vez ganhamos um Kratos e um Obi-Wan Kenobi enormes", diz Alexandre, espantado com os bonecos colecionveis do jogo God of War e de Star Wars, respectivamente. Em eventos do tipo em Manaus, Fortaleza, So Paulo, Recife ou Rio de Janeiro, a cena se repetiu, graas a essa onda discreta, que cresce no Brasil. A mesma onda que faz do cearense Jurandir Filho uma referncia em filmes. Ele nunca estudou cinema nem escreveu resenhas para jornais e sites. Mas, para as cerca de 80 mil pessoas que baixam seu programa, ele tem mais influncia que um crtico tradicional. Conseguiu isso com uma linguagem direta, usando histrias pessoais para ilustrar suas opinies sobre filmes. E, para ele, seu podcast tem tambm outro trunfo. "Mostrou que o nordestino pode fazer algo para o Brasil todo, sem seguir o esteretipo do programinha engraadinho'", diz. 
     Podcasts, para quem no sabe, so programas de udio peridicos que podem ser baixados em computadores, tablets ou smartphones. Na prtica,  um programa de rdio na internet, que voc ouve quando quiser.  um fenmeno velho para os padres digitais: a podosfera comeou a ganhar fora no Pas em 2005 como um espao despretensioso e informal de circulao de ideias. Hoje, esse clima permanece, mas muitos podcasters (como  chamado quem faz podcast) viraram empresrios, pessoas influentes e dolos.  um nicho  e esse  um dos motivos do sucesso e da longevidade do formato  porque quase sempre so pessoas que resolvem falar de um assunto especfico para um pblico especfico que quer ouvir sobre aquilo. E ainda  informal porque jogos, msica, cinema, quadrinhos etc. so tratados do jeito mais "conversa entre amigos" possvel. 

OUVINTE AMIGO 
     Quem faz um podcast acaba tendo uma relao mais prxima com o pblico do que outros formadores de opinio, como colunistas de revistas ou blogueiros. Para isso, os podcasters fazem questo de, sempre que possvel, falar de experincias pessoais nos programas.  uma receita usada h dcadas por apresentadores de mdias tradicionais. O pblico cria empatia, se reconhece em situaes e passa a se sentir prximo dos locutores. "H muitos podcasts em que ouvintes participam enviando mensagens em udio ou conversando com os podcasters durante os programas", diz Lcio Luiz, jornalista especializado no assunto (e ele mesmo um podcaster). At a, nenhuma novidade. Mas o formato do podcast permite que a interao seja diferente. O fato de precisar baixar o programa e ouvir na hora em que quiser torna a situao mais malevel ao seu dia a dia. Alm disso, o contato entre quem faz e quem ouve  invariavelmente simples  trocar ideias com o pblico  essencial para o sucesso. E isso leva a situaes inusitadas. "J recebemos convites para casamentos e, algumas vezes por ano, marcamos de tomar cerveja com os ouvintes", diz Tato Tarcan, do Ultrageek, podcast sobre tecnologia com 45 mil downloads em mdia. Essa relao gera um crculo virtuoso, que aumenta a oferta e a demanda. "Todo ouvinte pode se tornar um podcaster, o que, por sinal,  o caso da maioria", explica Lcio Luiz. 
     No Facebook, h um grupo fechado, o PodcastersBR, em que ouvintes e produtores de contedo postam episdios novos e falam sobre divulgao, servidores e equipamentos. L, eles discutem tpicos como onde encontrar trilhas e efeitos sonoros gratuitos, qual o melhor programa de edio, como otimizar o contedo para aparecer nas buscas na internet, qual o melhor headset ou se vale a pena investir nos anncios do Facebook. J o YouTuner  uma espcie de YouTube para podcast. So 274 ttulos com 20 mil horas de programao, dividida por temas especficos.  um prato cheio para quem quer comear a escutar. H tambm um aplicativo para iPhone, o WeCast, feito para ouvir podcasts diretamente no celular. "Foi ouvindo um podcast que tive a ideia de fazer o aplicativo", diz seu criador, Eduardo Baio. Alm disso, os comentrios nos sites dos prprios programas, geraram um crculo social  parte. O Jovem Nerd percebeu o potencial disso e criou a Skynerd, uma rede exclusiva para quem acompanha o Nerdcast e a programao do site. Tudo isso representa a podosfera, que  frequentada por gente como Igor Gudima, analista de desenvolvimento de vendas e ouvinte assduo de 90 (noventa!) podcasts. "Escuto no mercado, quando lavo a loua... Acho o efeito da informao via udio mais prtico. Recebo os assuntos que gosto sem precisar ler", explica. 

EXPANDINDO FRONTEIRAS 
     "Um ouvinte de podcast vale por cem de mdias tradicionais", defende Luciano Pires, 56 anos, do Caf Brasil, programa com 40 mil downloads que trata de assuntos polmicos do dia. Talvez a comparao seja exagerada, mas esse pblico  poderoso. Segundo o Jovem Nerd, 47% dos ouvintes do Nerdcast afirmam comprar o que  indicado no programa, como livros, jogos e brinquedos (entre blogueiras de moda, tema potencialmente mais consumista que cultura nerd, essa taxa  de 60%). Muitos podcasters se transformaram em marcas. Um spot, insero publicitria em que a equipe fala de um produto especfico por dois minutos, pode custar at R$ 7 mil, valor mais alto que em grandes rdios. J um programa temtico, ou seja, todo voltado a anunciar determinado produto ou servio,  negociado por at R$ 14 mil. E a publicidade nem  a maior fonte de renda dos podcasts, representando 40%. A maior parte vem de participao em eventos, palestras e venda de produtos com a marca do programa. 
     Mas nem sempre foi assim. H cinco anos, ningum ganhava dinheiro com isso. Hoje, novos podcasts j nascem com uma cara profissional, com reas para anncios, permutas com lojas online e investimento em produo. Entre equipamentos de gravao e criao do site, a equipe, normalmente formada por trs pessoas, investe cerca de R$ 400. Um podcast de sucesso fatura cerca de R$ 15 mil por ms. Alguns lucram mais de R$ 20 mil, tanto que muitos se dedicam integralmente a seus programas.  o caso de Jurandir Filho, que, alm do Rapadura-Cast, lanou o 99Vidas, sobre videogames antigos. 
     Alm de dinheiro, podcasts podem render credibilidade. Luciano Pires quer "desasnar" o Brasil, o que j o levou a eventos como a Campus Party e o TEDx. J Affonso Solano, do Matando Robs Gigantes, lanou o livro O Espadachim de Carvo e, em dois meses, vendeu 10 mil cpias, esgotando a primeira edio  um feito no mercado editorial brasileiro, que ele conseguiu graas a seus ouvintes. Com essa fama, os podcasters mais conhecidos esto em diversos eventos pelo Brasil, como naquele em que a dupla do Nerdcast dava autgrafos. 
     Mas a concorrncia  grande. So 300 podcasts brasileiros inscritos no iTunes, que contabiliza os programas. E eles esto ampliando os temas. A maioria se dedica  cultura pop e nerd, mas h outros contedos, como histria, turismo e mercado profissional. Eles atraem pessoas como o analista de sistemas Christopher Moura, que escuta 63 programas, especialmente os de empreendedorismo. "Cada vez que ouvia, ganhava mais fora para perseguir meus sonhos e trabalhar com o que gosto", diz. "Abri minha prpria empresa e estou a caminho d independncia financeira". Podcasts dificilmente criam webcelebridades da noite para o dia, como o YouTube ou o Facebook. Mas o pblico conquistado  fiel e duradouro. E  isso que eles querem. 

COMO FAZER SEU PRPRIO PODCAST
Nove dicas para voc ter um programa.
 Tenha um headset, que rene fone e microfone em um s equipamento.  a opo mais barata e com melhor qualidade de som.
 Se houver mais de um locutor, use Skype ou Google Hangout para gravar. Assim, no  preciso se reunir fisicamente toda vez que fizer um programa.
 Para editar, baixe o Audacity, que  fcil de usar, leve e de graa.
 Cuidado com direitos autorais. Use sites como Jamendo e Freeplay, que oferecem msicas livres, para usar em trilhas.
 O podcast precisa de um servidor. Voc pode publicar em um blog, mas o mais profissional  registrar um domnio e escolher uma empresa de hospedagem.
 Crie um design prprio. Mas, se preferir um pronto, use algum tema gratuito de servios de blogs como Wordpress.
 Faa um feed, como o Feedburner, do Google. Assim, quem assinar seu podcast ser notificado automaticamente quando houver um novo programa.
 Instale o podpress, o player mais usado entre os podcasters.
 Agora  divulgar nas redes sociais.


5. SADE  POR UM FIO
Vale guardar o cordo umbilical, rico em clulas-tronco, para uso futuro? A Anvisa sugere que no, e os cientistas se dividem.
REPORTAGEM / Salvador Nogueira
FOTO / Daniel Ozana/Studio Oz
ILUSTRAO / Fernanda Simionato
DESIGN / Paula Bustamante
EDIO / Emiliano Urbim

     Pouco antes de voc nascer, foi preciso tomar algumas decises. Algum escolheu seu nome. Suas primeiras roupas. Seu canto na casa. Seu local de nascimento. Recentemente, mais uma questo surgiu para pais, mes e responsveis. Vale a pena guardar o cordo umbilical, rico em clulas-tronco, na expectativa de que o recm-nascido ou seus parentes faam uso no futuro? 
     Os bancos particulares que armazenam o material dizem que sim. Mesmo que ele no seja til hoje, pode curar o cncer do seu filho quando ele tiver 80 anos. (E, quando se trata da sade do beb, quem pode paga os R$ 4 mil mdios para a coleta e R$ 500 a R$ 1.000 de anuidade para preservar o material.) Avanos cientficos  parte, j h especialistas que no acham que guardar o cordo seja indispensvel  e que bancos pblicos podem dar conta do recado. A verdade  que a questo divide os cientistas. Para desatar este n, melhor recapitular. 
     A pesquisa com clulas-tronco sempre gerou muita expectativa. A capacidade que elas tm de se transformar em outros tecidos do corpo (ossos, nervos, msculos) faz com que tenham potencial para tratar vrios tipos de doenas graves. O sangue do cordo umbilical, especificamente,  rico em clulas-tronco hematopoiticas. O nome  complicado, mas o conceito  simples: devidamente encorajadas, elas viram tecido sanguneo (glbulos vermelhos, glbulos brancos e companhia). Isso  timo, pois existem mais de 80 doenas do sangue, como leucemia, que podem ser tratadas com esse material. Em vez de retirar clulas da medula ssea de algum, realiza-se um saque de um banco de clulas-tronco de cordo umbilical  13 mil pacientes do mundo inteiro j foram beneficiados. 
 a que mora a polmica: o sangue de cordo deve vir de bancos pblicos ou  melhor que venha de um banco privado, aqueles que voc paga para extrarem e guardarem o "seu cordo"? 
     A verdade  que, na prtica, o uso privado  mnimo. "Das 45.661 unidades de sangue de cordo armazenadas nos bancos privados no Brasil, no perodo de 2003 a 2010, apenas trs foram utilizadas para transplante autlogo [ou seja, de material do paciente, recolhido quando ele nasceu]", diz um boletim recente da Anvisa (Agncia Nacional de Vigilncia). Ainda que no com todas as letras, o documento sugere que bancos privados so dispensveis. Entre os que concordam est a geneticista Mayana Zatz, do Instituto de Biocincias da USP. "Sempre fui contra coleta de sangue de cordo para uso prprio. Ele deve ser guardado em bancos pblicos", diz. A lgica  que, como a maioria das doenas que as clulas hematopoiticas tratam tem forte componente gentico, usar o mesmo DNA do paciente pode no resolver. "Aconselhamos armazenar clulas-tronco do sangue em banco privado apenas quando algum na famlia tem doena hematolgica", comenta Eder Zucconi, colega de Zatz na USP. A razo, nesse caso,  aumentar a chance de compatibilidade, tratando o paciente com material de um parente livre da doena. 

NA OUTRA PONTA 
     Os defensores da armazenagem privada do sangue do cordo naturalmente no gostaram da nova cartilha da Anvisa, que inclusive enfatiza o uso dos bancos pblicos da Rede BrasilCord."Talvez seja a melhor opo no dia em que os bancos pblicos forem eficientes", diz Lygia da Veiga Pereira, pesquisadora da USP que tem ligao com um banco privado de armazenamento de material de cordo. 
     Para Lygia, o baixo uso de material vindo de bancos privados, se comparado ao da rede pblica,  explicado pela frequncia dessas doenas na populao. "O pblico est atendendo a populao inteira  190 milhes de habitantes. O banco privado atende s a quem depositou l. Da sai a proporo de uso. Nos dois casos, dividindo o nmero de usos pelo nmero de potenciais usurios, voc vai encontrar uma porcentagem semelhante." 
     E a talvez esteja o cerne da questo. Por mais que as clulas-tronco de cordo j sejam usadas para tratamentos, e com sucesso, elas so aplicadas apenas em enfermidades raras e de frequncia baixa.  uma boa dose de gua no chope diante das promessas que ouvimos h mais de uma dcada sobre o potencial das clulas-tronco no tratamento de problemas que vo do mal de Parkinson a doenas cardiovasculares. "Este  um ponto para bater nos bancos privados: propaganda enganosa. Alguns se vendem como a garantia da sade do seu filho e dizem que, se voc no quiser, est negligenciando", afirma a pesquisadora Lygia. 

GALHO DAS CLULAS-TRONCO 
     As clulas-tronco do sangue do cordo parecem ter seu uso circunscrito a raras doenas sanguneas. Um estudo da USP aponta para o potencial das clulas-tronco presentes no tecido do cordo, chamadas de mesenquimais. "Acredito que essas clulas vo ter utilidade clnica, sim. Mas hoje no tm", diz Lygia. "As clulas-tronco hematopoiticas so as nicas que tm uso comprovado. As outras so pssaros voando." 
     Enquanto essas aves recusam-se a pousar, um avio pode ultrapass-las nos prximos anos. So as clulas "reprogramadas", amostras normais que recebem genes para se comportar como clulas-tronco. Se elas se mostrarem to boas quanto parecem nos laboratrios, ser o fim da necessidade de armazenar o material dos cordes. Mas esse ainda  um cenrio improvvel. 
 por essas e outras que, apesar do incrvel potencial visto nas clulas-tronco, os tratamentos ainda so raros e limitados a poucas doenas. A complexidade se sobrepe  aplicao imediata, exigindo estudos que levam anos para se concluir. E o futuro vai ficando para depois. 

PROMESSAS, PROMESSAS
Conhea os tipos de clulas-tronco e as expectativas em relao a elas.
HEMATOPOITICAS - Encontradas em grande quantidade no sangue do cordo umbilical. Podem se transformar em tecido sanguneo, como glbulos vermelhos e glbulos brancos. Usadas para tratar doenas sanguneas, como leucemia.
MESENQUIMAIS - Presentes no tecido do cordo umbilical. Tm potencial de formar osso, tendo, cartilagem, gordura e msculo esqueltico, entre outros. Por enquanto, potencial.
EMBRIONRIAS - Em tese, as mais versteis. Extradas de embries quatro ou cinco dias aps a fecundao. Contudo, controlar seu comportamento  dificlimo. Introduzidas no organismo, elas tendem a formar tumores.
DO LQUIDO AMNITICO - Muito ativas, se multiplicam com pouco estmulo e no induzem  formao da tumores. Podem se transformar em diversos tipos de tecido, como gordura, osso, sangue, fgado e sistema nervoso. Uma boa promessa.
REPROGRAMADAS - Clulas normais que recebem genes para se comportarem como clulas-tronco. Caso se mostrem to boas quanto parecem nos testes, ser o fim da necessidade de armazenar material dos cordes. Mas ainda falta muito.


6. MUNDO  PARA ONDE VAI QUEM NO TEM PARA ONDE IR
Fomos at um campo de refugiados na Suazilndia, uma pequena monarquia africana, descobrir como  o dia a dia das 400 pessoas que fugiram de conflitos em seus pases e foram viver l.
REPORTAGEM Marcela Bordin
ILUSTRAO Patrcia Brandstatter
DESIGN Ricardo Davino
EDIO Cristine Kist

     No campo de refugiados de Malindza, interior da Suazilndia,  comum encontrar pessoas usando trajes de festa durante o dia, homens com calas femininas e crianas vestindo fantasias. No  carnaval. A estranha moda local nasceu de uma peculiaridade tpica de um campo de refugiados. A maior parte dos acolhidos (nesse caso, pessoas que escaparam de confrontos em vrias regies da frica) no tem documentao e, portanto, no pode trabalhar fora do campo e muito menos deixar o pas. Ento a minoria que pode vai at os pases vizinhos, compra roupas de segunda mo e revende em Malindza. A volta e meia voc d de cara com menininhas de ps descalos, aparncia suja e ranho escorrendo pelo nariz vestidas de princesa. 
     Praticamente ignorada pela imprensa, a Suazilndia s costuma virar notcia em funo dos altos ndices de contaminao pelo vrus da aids  metade das mulheres suazis convive com a doena  ou graas s excentricidades do rei Mswati III. Em 2001, por exemplo, o rei proibiu as jovens suazis de fazerem sexo pelos prximos cinco anos a fim de conter a propagao do HIV, e exigiu que as meninas usassem uma espcie de pendo representando sua castidade. O descumprimento da lei custava uma vaca a cada uma das partes envolvidas (o prprio rei depois acabou se casando com uma menina de 17 anos e, para no ficar chato, teve de pagar a vaca que lhe cabia).

AS "PECULIARIDADES" DE MALINDZA
     Os refugiados so castigados por condies sanitrias deficientes, pela ausncia de educao e, acima de tudo, pelo pessimismo em relao ao futuro. "Eu no sei a que lugar eu perteno, onde esto meus direitos como ser humano", diz Mahamud Shukri, o refugiado somali de 30 anos que nos acompanhou em uma caminhada atrs de dois garotos negros e franzinos que iam buscar gua em um aude a dois quilmetros do campo (s os prdios administrativos tm gua corrente). Alm de Shukri, estvamos eu, minha irm, uma estudante brasileira de ps-graduao em Relaes Internacionais, e um americano, membro de uma organizao de voluntariado, que serviu como nosso guia durante a visita de uma semana ao campo. 
     Shukri deixou a Somlia aos 8 anos de idade, fugindo do conflito entre grupos rebeldes e foras governamentais que comeou em 1991 e dura at hoje. [A guerra civil na Somlia comeou depois da deposio do ditador Siad Barre. Um grupo que queria que ele continuasse no poder deu incio ao confronto. No decorrer dos anos, outros pases tentaram interferir, o que s aumentou a fria dos locais.] Seu pai, seu irmo mais velho e seus primos foram mortos ainda na Somlia. Sua irm morreu no caminho para a frica do Sul. Sua me, com quem ele no fala h anos, est em outro campo, no Qunia. Fruto de uma trajetria errante e violenta, Modu, como  conhecido no campo,  poliglota (fala ingls, swahili e siswati fluentemente), faz as vezes de tradutor para os estrangeiros que passam pelo campo e no tem ideia do que esperar do amanh: "O tempo passa. Eu preciso de uma famlia, preciso de um trabalho, preciso de uma vida melhor". 
     Na caminhada, os tons amarelados e acinzentados dos prdios e o colorido do lixo que se acumula a cu aberto compem a paisagem rida. O campo de Malindza foi criado no final dos anos 70 pelo Alto Comissariado das Naes Unidas para os Refugiados (Acnur). No auge, foram abrigadas cerca de 8 mil pessoas. Mas com o estabelecimento da paz em Moambique e o fim do Apartheid na frica do Sul, o nmero de refugiados foi diminuindo gradualmente, e em 2005 at a ONU se afastou. Hoje, o campo abriga 200 adultos e 200 crianas, e  administrado pelo prprio governo da Suazilndia. 
     Campos de refugiados so construdos para acolher populaes mveis, que so obrigadas a deixar suas casas em funo de conflitos ou desastres naturais. O porta-voz do Acnur no Brasil, Luiz Fernando Godinho, explica que existe um padro para a construo de campos de refugiados, mas diz que "cada campo tem sua peculiaridade". Entre as diretrizes, h especificaes sobre as dimenses mnimas do campo (cada refugiado deve ter, pelo menos, 30 m2 de rea), sobre as condies sanitrias e sobre o acesso a gua, alimentao e educao. 
     Embora seja obviamente difcil comparar campos de refugiados, Malindza parece mesmo estar devendo. Em primeiro lugar, h o problema da falta de gua. Alm disso, o campo  teoricamente uma forma de apoio, um facilitador, e portanto deve fornecer recursos para educao (especialmente em um pas onde o ensino  pago) e para a capacitao de adultos e crianas. Mas no oferece. Em Malindza, as crianas no vo  escola, e o comrcio fica restrito  venda de roupas usadas, de refeies e de frutas e vegetais. O problema  que a produo desses alimentos depende da agricultura, uma prtica que no faz parte da cultura de todas as etnias. 
     
DOIS CAMINHOS
     Restam poucas alternativas para refugiados como o somali Adam Abdulahi Daar, 34 anos, que vem de uma cultura mercante, no possui nenhuma experincia agrria, e que, apesar de estar no campo h dois anos, ainda no recebeu os documentos que o liberam para viajar. Questionado sobre suas habilidades e qual profisso poderia exercer, respondeu "nenhuma". Adam  tmido, no fala quase nada de ingls e apresenta nos braos as marcas da Xenofobia sul-africana: cortes e queimaduras, frutos de ataques motivados pelo dio contra estrangeiros. Mesmo assim, ele gentilmente cedeu seu quarto para que pudssemos almoar. Nas paredes, Adam mostrou orgulhoso a decorao composta por cartazes escritos por voluntrios, com informaes a respeito dos mais diversos assuntos, desde dicas sobre como se prevenir do vrus da aids a regras de gramtica em ingls. 

[xenofobia sul-africana - A poltica de segregao racial do Apartheid durou quase 50 anos. O regime determinava a que locais os negros tinham acesso e, entre outras coisas, proibia o casamento entre brancos e negros.]

     Outro jovem que cresceu em Malindza, William Hatungimana, de 23 anos fo a exceo da regra e conseguiu driblar a aparente falta de oportunidades. William tinha 4 anos quando, em 1994, caiu o avio do presidente de Ruanda, Juvnal Habyarimana, e teve incio o genocdio no pas  foram mortas em torno de 800 mil pessoas. "Voc est se divertindo durante o feriado e, no outro dia, acorda e tem pessoas mortas em todo lugar. Tem pessoas literalmente massacrando outras pessoas", conta. 

[genocdio no pas - Nos anos 70, o militar Juvenal Habyarimana, da etnia hutu, dissolveu o Congresso e se autoproclamou presidente. Apesar da oposio dos rivais tutsis, ele permaneceu no poder at o atentado de 1994. Depois que ele morreu, as duas etnias comearam a guerra civil que dizimou mais de 10% da populao do pas.]
     
     William e sua famlia passaram pelo Congo, Tanznia e Malawi antes de chegarem  Suazilndia, onde finalmente se estabeleceram. O trajeto at l, como o da maioria dos refugiados, no foi fcil. "Em todo lugar (de Ruanda) havia barricadas e eles checavam se as pessoas eram tutsi ou hutu (as etnias rivais). O que eles identificavam eram alguns traos fsicos aleatrios, como o nariz e a altura. Talvez ns no tivssemos esses traos que eles estavam procurando, ento ns passamos. Mas quando chegvamos em cada barricada, tinha algum sendo morto ali. Assassinados com machados, tiros. E os que levavam tiros eram sortudos, porque era rpido e no era doloroso". 
     Como refugiado do campo de Malindza, quando ele ainda era administrado pelo Acnur e oferecia melhores condies, William recebeu educao elementar, mdia e secundria (primeiro paga integralmente, depois, parcialmente), bem como materiais e uniformes escolares. Graas ao seu bom desempenho, ganhou bolsa para uma das faculdades mais conceituadas na Suazilndia. Hoje, ele mora nos Estados Unidos e faz uma dupla habilitao em Relaes Internacionais e Economia pela Luther College, em Iowa. William volta regularmente ao campo porque seus pais continuam l. No futuro, ele tem planos de trabalhar em uma organizao no-governamental e ajudar pessoas necessitadas. 
     Os dois garotos com quem fomos buscar gua podem se resignar como o tmido Adam Abdulahi Daar. Ou podem fazer a prpria trajetria, como William Hatungimana, prova viva de que h sada para quem tem fora de vontade e alguma sorte de receber o apoio certeiro. O que faz a frica to inexplicavelmente incrvel  isso; como em Malindza, alguns perdem as esperanas, enquanto outros, apesar das circunstncias, no desistem de tentar. 

1968 - A Suazilndia foi colnia da Gr-Bretanha at 1968, quando passou a ser governada pelo rei Sobhuza II.
1973 - O rei dissolveu o parlamento e colocou todos os partidos na ilegalidade. Esse mesmo rei casou pelo menos 70 vezes e teve 210 filhos (o que significa que ele era pai de 0,02% da populao na poca).
Quando ele morreu, quem assumiu o trono foi o 68 filho, Mswati III. Ele governa junto com a me, que recebeu o ttulo de "Grande Elefanta".
2005 - Depois de muita negociao, Mswati III foi obrigado a assinar uma nova Constituio. Mesmo assim, ele continua podendo escolher o primeiro-ministro e todos os ocupantes de cargos importantes.
HOJE  69% dos 1.128.362 habitantes esto abaixo da linha da pobreza. Enquanto isso, o rei construiu um estdio de 15 mil lugares para comemorar o prprio aniversrio e encomendou uma poro de BMWs para receber os amigos.

REFUGIADOS PELO MUNDO
42,5 milhes de pessoas viviam foradamente fora de casa em 2012, a maioria deslocada por conflitos.
Em mdia, 23 mil pessoas por dia foram obrigadas a deixar suas casas s em 2012.
10,5 milhes so refugiados.
3,5 milhes deles viviam em campos.
5,25 milhes em cidades.
1,75 milho em zonas rurais.
80% dos refugiados esto em pases subdesenvolvidos (os outros 20%, portanto, esto em pases desenvolvidos).
46% dos refugiados tm menos de 18 anos.
48% dos refugiados so mulheres.
O Paquisto  o pas que abriga o maior nmero de refugiados: so 1,9 milho, ou 710 refugiados para cada US$ 1 da renda per capita do pas.

Fonte Alto Comissariado da ONU para os Refugiados


7. ZOOM  RECESSO ESCOLAR
Grupo de fotgrafos americanos invade locais abandonados, como a escola Cass Tech, para registrar a decadncia da cidade de Detroit.
Foto / DetritUrbex
Design / Ricardo Davino
Edio / Cristine Kist

Detroit, antigo polo industrial americano, est devendo cerca de US$ 20 bilhes e pediu falncia em julho. H 70 anos, 1,8 milho de pessoas viviam na cidade. Agora, s sobraram 700 mil. Quem foi embora deixou para trs casas, cinemas, igrejas e at escolas. Uma delas, a Cass Tech, foi escolhida pelo grupo DetroitUrbex, praticante de exploraes urbanas, como o principal smbolo da decadncia da cidade. A explorao urbana , basicamente, a invaso e o registro fotogrfico de locais abandonados. A Oass Tech tinha sido construda em 1922 e era um marco arquitetnico da cidade. Ela foi desocupada em 2005 e continuou definhando at 2011, quando finalmente foi demolida. Curiosamente, durante os anos em que a escola ficou vazia, ningum se preocupou em retirar os livros e computadores deixados pelos alunos. "Era uma viso incrvel. O prdio era enorme e cheio de coisas deixadas para trs. Muita histria", diz um dos colaboradores do DetroitUrbex, que obviamente prefere no se identificar.

1- AULA PRTICA - O antigo laboratrio de biologia virou uma farta fonte de matra-prima para os bilogos, cheio de cadeiras enferrujadas, paredes mofadas e todo tipo de material em decomposio.
2- MEDALHA DE OURO - Na imagem sobreposta, alunos jogam uma partida de basquete em 1988. Duas dcadas depois, a quadra ficou irreconhecvel. A escola tinha dois ginsios, piscina e estdio de dana.
3- TELA EM BRANCO - Tambm em 1988, alunos conversam em frente ao mural de artes do terceiro andar. Ainda faziam parte da estrutura da Cass Tech biblioteca com computadores, sala de msica, auditrio e teatro.
4- CAMINHO LIVRE - Um incndio em 2007 prejudicou ainda mais a j danificada estrutura da escola. "Nostalgia no conserta rachaduras", justificou o prefeito quando os alunos foram transferidos.


8. COMIDA  100% BOVINO
Nada se perde, tudo se transforma. Conhea os destinos surpreendentes do que sai de bois e vacas.
INFOGRFICO / Carol Castro, Fabrcto Pessoa, Pedro Henrique, Karin Hueck e Fabrcio Miranda

Chifre - VIRA BOTO, BRINCO, COLAR, PULSEIRA E BERRANTE.
Crebro - VIRA BATOM, CREME ANTIENVELHECIMENTO E IMPLANTES
Nariz - VIRA REMDIO PARA ARTRITE
Corao - VIRA RAO ANIMAL, MATERIAL PARA CIRURGIA CARDIOVASCULAR E DE HRNIA
Pulmo - VIRA HEPARINA E ANTICOAGULANTE
Estmago - VIRA VITAMINA B-12 E COALHO (ENZIMA DE QUEIJOS COMO CHEDDAR E PARMESO)
Casco - VIRA GELATINA, ESPUMA DE EXTINTOR DE INCNDIO, FARINHA DE OSSOS, BOTO E TECLA DE PIANO
Intestino - VIRA CORDAS DE RAQUETE DE TNIS E DE INSTRUMENTOS MUSICAIS, SUTURAS CIRRGICAS
Leite - VIRA SORVETE, IOGURTE, MANTEIGA, MARGARINA, REQUEIJO, QUEIJO, COLA, COSMTICO E REMDIO
Sangue - VIRA ESPUMA DE EXTINTOR DE INCNDIO E FIXADOR DE CORANTES QUMICOS; SALSICHA, COBERTURA DE PIZZA CONGELADA, MACARRO E MISTURA DE BOLO; ADESIVO PARA MADEIRA COMPENSADA; FERTILIZANTE
Figado  VIRA SALSHICHA
Pncreas  VIRA INSULINA
Pele e Pelos - VIRAM PINCEL, ESCOVAS, COBERTOR, COLCHES E COURO (ROUPAS, ACESSRIOS, BOLA, ASSENTO DE CARRO)
Placenta  VIRA CREME PARA A PELE
Ovrios - VIRA HORMNIOS (ESTROGNIO E PROGESTERONA)
Ossos - VIRAM PELCULA DE FILME (DE CINEMA E FOTOGRFICO), GELATINA, COLGENO E CARTILAGEM PARA CIRURGIA PLSTICA, CARVO, FERTILIZANTE, PORCELANA E LPIS
Esterco  VIRA FILTRO DE GUA, ADUBO E CASA DE BARRO.

GADO CONTADO
Nmeros curiosos sobre bois e vacas
2/3 DO BOI  CARNE
1/3 PASSA POR RECICLAGEM ANIMAL
1 ano  Depois dessa idade, material do crebro, olhos, amidalas e medula no deve ser extrado  os rgos de vigilncia sanitria probem o uso.
Bois e vacas foram domesticados na regio da mesopotmia, por volta de 3000 a.C
920  o nmero de raas de gado que h no mundo.
4 minerais fundamentais esto presentes no leite de vaca: clcio, fsforo, magnsio e zinco.
100l de saliva  o que um boi baba por dia. Ainda no h utilidade definida.


9. RELIGIO  A NOVA CRUZADA
A vinda do papa Francisco ao Brasil foi muito mais do que uma simples visita  ela  o comeo de uma grande ofensiva mundial da Igreja para reconquistar a influncia perdida.

" a vontade de Deus", clamou o papa  multido. Seu grito foi saudado com empolgao e rapidamente se espalhou por todo o mundo catlico. A Igreja estava em crise, rachada, acuada pela expanso do Isl. Estamos em Clermont, na Frana, o ano  1095, e Urbano 2 convocava clrigos e nobres a iniciar a retomada da Terra Santa, conquistada por rabes no sculo 7. Prometendo indulgncia plena (perdo de todos os pecados) para quem partisse para Jerusalm, Urbano 2 iniciou a Primeira Cruzada da Igreja Catlica. 
"O Senhor continua precisando de vocs, jovens, para a sua Igreja... No sejam covardes. Saiam s ruas como fez Jesus", diz o papa. Desta vez, o papa  Francisco e o ano, 2013. Diante dele, 3 milhes de pessoas fazem viglia em Copacabana. Outros milhes o assistem pela televiso ou pela internet. Novamente a Igreja est em crise. Depois de anunciar indulgncia plena a todos que o acompanhassem  mesmo que pelo Twitter , Francisco convoca os seus soldados na ltima noite da Jornada Mundial da Juventude do Rio de Janeiro.  o incio da Nova Cruzada.

A CRISE
"A Igreja  viva, a Igreja  jovem", gritaram durante uma semana 427 mil peregrinos de 175 pases  e tantos outros cariocas que aproveitaram o feriado para aderir  JMJ. Viva e jovem. Um semestre atrs, a frase pareceria delrio. Em 28 de fevereiro, Bento 16 pediu para sair  a primeira renncia papal em 600 anos. Na sua ltima despedida, disse que "houve momentos nos quais as guas estiveram muito agitadas, o vento era contrrio e o Senhor parecia dormir"  no estava fcil conduzir "a barca de Pedro". A crise na Igreja se reflete nos nmeros de fiis no mundo todo [veja o cenrio, continente por continente, nas prximas pginas]. 
     Na Europa, o nmero de seminaristas despencou 21,7% em apenas uma dcada. Nos EUA, escndalos de pedofilia minam a Igreja, e a entrada de cada novo fiel  anulada pela sada de quatro. Na Amrica Latina, o maior rebanho do mundo, a Igreja perde 10 mil fiis por dia, principalmente para Igrejas evanglicas neopentecostais. O caso mais extremo  o brasileiro. 
     A Igreja comeou a se afundar na crise enquanto os Engenheiros do Hawaii compunham O Papa  Pop. Apesar de ainda ser um dos maiores lderes morais do mundo em 1991, Joo Paulo 2 dava sinais de que j no era mais to pop. Seu estrelato comeara em sua Polnia natal, onde 95% da populao era catlica. Ao ser entronado papa, em 1978, ele transformou a Igreja no grande denominador comum da sociedade polonesa, descontente com o regime comunista. Numa visita ao pas, inspirou a criao do sindicato Solidariedade, em 1980  a primeira organizao de oposio nos pases comunistas. O Solidariedade tornou-se a fagulha que iniciaria a imploso do bloco comunista. Em 1989, venceu as eleies parlamentares polonesas, e as presidenciais em 1990. E, em 1991, caa o gigante ateu: a Unio Sovitica. A Igreja estava no topo do mundo. 
     Mas, com a derrota do inimigo, ironicamente, comeou a perda de relevncia de Roma. Os Estados Unidos, que tratavam o papa como um aliado fundamental na Guerra Fria, esqueceram dele quando a ameaa acabou. Os pases comunistas lanaram-se nas aventuras consumistas do capitalismo e passaram a rejeitar a influncia do Vaticano. Nos anos finais de seu pontificado, Joo Paulo 2 deixou de ser um dos maiores lderes polticos do mundo e voltou sua ateno para a vida privada de seus fiis. No gostou do que viu. As pessoas iam mais ao shopping do que  missa. O divrcio crescia a ritmo galopante, assim como os segundos casamentos. Governos faziam campanha pelo uso de camisinha para evitar a aids. A ONU pregava os direitos sexuais e reprodutivos das mulheres. 
     Nesse mundo que lhe parecia em dissoluo moral, Joo Paulo 2 sentiu-se na misso de fortalecer a doutrina catlica. E, assim, ficou mais alta a voz do seu brao direito: o cardeal alemo Joseph Ratzinger, ento prefeito da Congregao para a Doutrina da F. Em agosto de 1991, Joo Paulo 2 levou a JMJ  cidade polonesa de Czestochova. At chegar l, percorreu o pas pregando contra o aborto e pelo ensino religioso nas escolas. Mas a indiferena religiosa foi um adversrio mais difcil que o comunismo. Os poloneses o ignoraram. Uma pesquisa nacional perguntou se a Igreja deveria participar na vida poltica do pas, e 57% da populao respondeu "no". Os jovens estavam to cansados de religio quanto de comunismo. 
     Esse cansao valeu para todo o mundo catlico. Joo Paulo 2 no se rendeu: endureceu sua posio contra quaisquer mtodos anticoncepcionais  inclusive camisinha, enquanto a aids dizimava a populao de alguns pases africanos. Ops-se  homossexualidade,  fecundao artificial e  manipulao gentica. Repreendeu defensores do casamento de padres e da ordenao de mulheres. E apoiou grupos ultraconservadores na Igreja  o que se coroou com a canonizao do fundador da Opus Dei, em 2002. A reao dos catlicos foi o distanciamento. Como se no bastasse, veio a bomba. Ondas de denncias de abuso sexual contra menores pelo clero surgiram nos EUA, na Irlanda e depois se espalharam pelo mundo. Seu auge foi um relatrio de 2004, analisando 10.667 denncias contra 4.392 padres entre 1950 e 2002, nos EUA. Em 2005, Joo Paulo 2 morreu sob a sombra do escndalo. 
     Seu sucessor foi o cardeal mais prximo do papa e o mais engajado na defesa da f, o "rottweiler de Deus": Ratzinger, agora Bento 16. Com ele, a Igreja mantinha o conservadorismo, mas perdia carisma. Diante da crise de fiis, dos escndalos sexuais e de uma denncia de lavagem de dinheiro pelo Banco do Vaticano, Bento 16 torceu o nariz e anunciou que a Igreja queria menos "quantidade" e mais "qualidade" de fiis. 
     A receita da Igreja ensimesmada no funcionou. Quando Bento 16 renunciou, o mundo cristo reagiu com frieza e o Facebook se encheu de memes comparando-o ao imperador Palpatine, de Star Wars. 

A ESTRATGIA 
     Tera-feira, 23 de julho de 2013. Um vendedor ambulante percorre o Largo da Carioca improvisando um funk: "Viva a juventude, viva Jesus. Chip da Oi, chip da TIM". Assim tentava abordar o grupo de australianos que saa da primeira manh de catequese da JMJ e se direcionava ao McDonald's para aproveitar os descontos para peregrinos nos lanches. No rosto dos australianos, a expresso era de cansao, depois de passar a manh ouvindo sermo. Por trs manhs consecutivas, 264 locais receberam catequeses e missas em 25 idiomas. J  tarde, cem confessionrios instalados na Quinta da Boa Vista e no Largo da Carioca davam absolvio aos pecados. Hstias? No total, 4 milhes. 
     No metr, um padre canadense distribua uma cartilha em ingls contra quaisquer formas de aborto, contra contraceptivos, contra a plula do dia seguinte, contra testes pr-natais, contra a reproduo assistida, contra pesquisas embrionrias. Pergunto se ele esteve no Largo do Machado na noite anterior. "No..." Ento perdeu feministas de seios de fora e casais de gays e lsbicas fazendo um beijao nas escadarias da Igreja, aos gritos de  "eu beijo homem, beijo mulher, beijo quem eu quiser". 
     O Rio estava tomado pelos peregrinos, que andavam perdidos em grupo pela cidade, agarrados s suas mochilas amarelas. Tantas eram as pessoas que a portuguesa Catarina Rodrigues, uma leiga capuchinha estudante de enfermagem, preferiu fazer uma caminhada meditativa na Floresta da Tijuca com um amigo." Para que quatro horas de catequese e missa todos os dias? Para provocar exausto? Se for assim, ento a Igreja conseguiu. Aqui no h espao para questionar o que  a f." 
     Mas espere a. Se as missas pareciam a mesmas de sempre, se o discurso conservador era o mesmo, o que havia de diferente para que esta JMJ fosse uma resposta  decadncia da Igreja? Como era possvel que tantos jovens tivessem sido atrados, se o que se oferecia era mais do mesmo? O que transformaria esse encontro de jovens numa Cruzada? Simples: Francisco. 
     Nos mais diversos pontos da cidade, do Maracan a Ipanema, os peregrinos gritavam numa sopa de sotaques internacionais: "Papa Francisco, juntos em Cristo". 
     "Foram me buscar quase no fim do mundo", disse quatro meses antes o ento obscuro cardeal argentino Mrio Bergoglio para os fiis que aguardavam o novo papa na praa de So Pedro. Hoje, "O Papa do Fim do Mundo" j  nome de aplicativo para iPad, documentrio, biografia da Editora Caras. Para a cruzada em busca de fiis, a Igreja Catlica precisava do oposto de Ratzinger. Se Bento 16 prendeu-se aos fundamentos da doutrina, o novo papa precisaria ser muito pragmtico  pragmtico como so os jesutas, que, a bordo das naus portuguesas, levaram o catolicismo ao Novo Mundo, ao Japo, ao Tibete,  frica e  ndia. 
     Se Bento 16 defendia que a Igreja deveria se preocupar com a qualidade de seus fiis e no com sua quantidade, o novo papa deveria ser um pastor capaz de mobilizar seu rebanho  assim como So Francisco de Assis, o filho de comerciante rico que renunciou  herana e comeou uma nova vida ajudando pobres e leprosos, reconstruindo igrejas como pedreiro e pregando a humildade, a simplicidade e a justia. Se Bento 16 passou dcadas dentro do Vaticano e nada conseguiu fazer para faxin-lo de  escndalos, o novo papa precisava ser um forasteiro, distante o suficiente da Cria Romana para ser capaz de transform-la. 
     Mrio Bergoglio satisfez essas trs necessidades:  o primeiro papa jesuta da histria, o primeiro a adotar o nome Francisco e o primeiro a vir de to longe de Roma, da Amrica Latina. Assim, Francisco adotou uma nova estratgia. A de que, em suas palavras, "a Igreja saia de si mesma e v s periferias, no s s geogrficas, mas tambm s existenciais." A Igreja Catlica agora tem uma liderana para iniciar sua Cruzada. 

O LDER 
     Na praia de Copacabana, o som ecoava pelos alto-falantes: "Ele no traz ouro. Ele no traz prata. Traz apenas sua presena. E, consigo, ele traz Jesus". O helicptero tinha acabado de aterrissar no extremo oposto da praia, no Forte de Copacabana, e o volume dos gritos aumentava a cada fala dos dois apresentadores. "Somos um milho de jovens catlicos! Levantem as bandeiras de seus pases! Uma f, um corao. De todas naes, uma s Igreja!"  e cada grupo de fiis formava seu pequeno feudo na praia. No mar, trs navios de guerra da Marinha Brasileira. No cu, outros quatro helicpteros. Na terra, 25 mil homens da polcia e das Foras Armadas. "Viemos de longe e de perto, somando sonhos", continuaram os animadores enquanto o caminho do helicptero at o papamvel era transmitido em 15 teles de LED espalhados ao longo da praia. Os tetos dos banheiros qumicos haviam se transformado em mirantes de onde jovens se equilibravam para acompanhar a passagem do lder espiritual. 
     "Gente de bem, gente de paz, gente que Deus preparou", canta a multido at a melodia se transformar em gritos histricos. Na pista de asfalto protegida por grades, voluntrios vestidos de amarelo de repente saem correndo. E, num instante  vruuum , passa o utilitrio Mercedes-Benz branco adaptado, com Francisco de p acenando aos dois lados. "Ah, passou muito rpido", reclama uma senhora, enquanto uma massa comea a correr desesperadamente no calado de pedras portuguesas para poder estender s mais um tantinho a viso do Santo Padre. "Ele est quebrando blindagens para ir at o povo", diz o radialista Aristides Silva Albuquerque, 34, que veio desde Afogados de Ingazeira, PE, para acompanhar a JMJ. "Ele mostrou que devemos nos desprender das coisas materiais", diz o funcionrio pblico angolano Fernando Jai, 31. E multides de latino-americanos gritam: "Esta es La juventud deL papa". No importa a origem e a histria de vida, os peregrinos que a SUPER entrevistou tm a mesma opinio sobre Francisco: sua humildade aproximou a Igreja de seus fiis tal como no se via desde os tempos do Solidariedade. 
     Seu primeiro ato como papa foi decidir no morar no suntuoso Palcio Apostlico  preferiu ficar em um dos 130 quartos da austera Casa de Santa Marta, onde pode ter contato mais prximo com pessoas de fora do Vaticano. Em sua primeira viagem para fora de Roma, foi  ilha de Lampedusa, porta de entrada de imigrantes africanos sem documentao na Itlia, e lanou ao mar uma coroa de crisntemos em memria dos imigrantes que morreram na travessia. Sua primeira viagem internacional foi ao Brasil, terra de catolicismo popular, sempre renegada por Roma, que levou sculos para canonizar um cidado do maior pas catlico do mundo. 
     No Rio, ignorou protocolos. Enfiou o papamvel na multido. Foi  favela de Varginha elogiar o hbito de "colocar mais gua no feijo". Visitou cinco jovens infratores e disse vrias vezes "Candelria, nunca mais!", referindo-se ao massacre de oito crianas e adolescentes 20 anos atrs. Por fim, veio o pedido que repete desde sua primeira apario como papa: "rezem por mim". 
     E o que dizer da doutrina? No era mesmo de se esperar nenhuma grande transformao  o catolicismo, obviamente, continua o mesmo. Mas a nfase mudou. Agora, com Francisco, o foco  no perdo, e no mais no pecado. O novo papa evita polmicas. Numa entrevista coletiva feita no voo de volta a Roma, explicou por que no falou sobre aborto e casamento de pessoas do mesmo sexo; "a Igreja j se expressou perfeitamente sobre isso." Por outro lado, defende o batismo de filhos de mes solteiras e o acolhimento de homossexuais pela Igreja. "Se uma pessoa  gay, busca Deus e tem boa vontade, quem sou eu para julg-la? O problema no  ter essa tendncia. Devemos ser como irmos." A regra continua a mesma. Mas a figura do caga-regras sumiu. 

OS ALIADOS 
     Na chegada ao Brasil, a tropa de choque fechou todas as ruas de acesso ao Palcio da Guanabara. L, o Santo Padre seria acolhido por autoridades numa recepo que custou R$ 850 mil aos cofres pblicos  R$ 1.300 por convidado, com direito a gua, caf e biscoitos. Eis que, em frente ao bloqueio, um senhor de barba grisalha at a altura do peito levantou seu cartaz; "Fora, papa, fora". Imediatamente, uma senhora que carregava um tero gritou: "sai, ateu!" " o Anticristo!", arriscou outra. "Este  um pas catlico!" E um grupo de peregrinos liderado por um rapaz de Tocantinpolis comeou a rezar o "Pai Nosso". 
     Nesse momento, o senhor vestiu seu quip. Era Marcos ben Moiss, um comerciante e professor de hebraico. "Todas as religies so lindas, e o brasileiro  o melhor povo do mundo", disse ben Moiss. "Eu vim aqui defender a nossa Constituio laica. Vim defender seu artigo 19." Segundo esse artigo,  vedado  Unio, ao Estado e  Prefeitura subvencionar cultos religiosos ou igrejas. A Unio admitiu ter gasto R$ 57 milhes na segurana da JMJ e do papa. O Estado e a Prefeitura do Rio racharam uma conta de R$ 52 milhes. A cidade declarou dois dias inteiros e dois meios-dias feriados, causando outro impacto de milhes na economia. O metr ficou interditado para cidados comuns  s podia us-lo quem tivesse o carto da JMJ ou um bilhete especial comprado com antecedncia. 
     Mas, na Cruzada de Francisco, o Estado brasileiro no  o nico aliado. A imprensa credenciou 6.400 profissionais, que fizeram uma cobertura extensiva da JMJ. Nem toda a imprensa ajudou igual. Entre os dias 22 e 28 de julho, a Record, do bispo Edir Macedo, transmitiu 3 horas e 24 minutos de JMJ. J a Globo deu 32 horas e 53 minutos. No domingo de manh, cancelou a transmisso do Grande Prmio da Hungria para televisionar a missa. 

O CHAMADO 
     No sbado, sua ltima noite no Rio, o papa abriu a viglia de 3 milhes de fiis contando a histria de So Francisco de Assis  o jovem que, diante do crucifixo, ouviu a voz de Jesus mand-lo reparar a casa de Deus. O rapaz obedeceu, virou pedreiro e comeou a reformar igrejas. Depois, sacou que Jesus no se referia a prdios de pedra, mas  prpria Igreja Catlica. Com essa histria, o papa conclama  multido: "Joguem sempre na linha de frente, no ataque! So Pedro nos diz que somos pedras vivas que formam um edifcio espiritual. Jesus nos pede que a sua Igreja viva seja to grande que possa acolher toda a humanidade! Ele diz a mim, a voc, a cada um: 'Ide e fazei discpulos entre todas as naes!'" 
     Na manh do domingo em que voltaria para Roma, foi a vez de dizer a seus compatriotas argentinos: "Eu quero agito nas dioceses, que vocs saiam s ruas. Eu quero que ns nos defendamos de toda acomodao, imobilidade, clericalismo. Se a Igreja no sai s ruas, se converte em uma ONG. A Igreja no pode ser uma ONG", discursou na Catedral Metropolitana do Rio. 
     A Cruzada foi conclamada. Daqui para a frente,  a Histria. 

EUROPA
Embora abrigue a sede da Igreja, o continente deixou de ter o maior nmero de catlicos, sendo superado pela Amrica Latina. E o declnio continua, com a secularizao e a imigrao.

OS FIIS Nos ltimos 100 anos
Quantos catlicos so europeus
1910 65%
2010 24%

Quantos europeus so catlicos
1910 44%
2010 35%

Vo  missa toda semana
Frana 1 em cada 10
Espanha 2 em cada 10
Alemanha
1,66 em cada 10

Consideram a religio muito importante em suas vidas
Itlia 25%
Espanha 36%
Alemanha 34%
Frana 13%

O QUE PENSAM OS FIIS
Italianos tm a maior populao catlica da Europa. E, apesar de sua fama, vo contra a doutrina da Igreja.
86,3% apoiam uma lei para divrcio "express".
79,4% apoiam a fecundao assistida.
63,9% apoiam a administrao de plula abortiva.
40,4% apoiam casamento de pessoas do mesmo sexo.
18,5% apoiam unio civil, embora no como casamento.
64,8% apoiam a eutansia.
64,8% apoiam o suicdio assistido.

O CLERO
2010: 9% Padres; 18% Frades e Monges; 22% Freiras e Monjas; 21,7% Seminaristas; 43% Diconos (So os nicos que podem casar)

A SEDE DA IGREJA VIROU AS COSTAS PARA ELA
As primeiras Cruzadas foram lanadas da Europa  mas agora  ela o continente a ser reconquistado. "Na Europa, a Igreja vive um declnio desde o sculo 19, quando estava do lado errado da histria  apoiando o antigo regime e combatendo o Iluminismo", escreveu o padre jesuta e escritor Thomas Reese. Como consequncia, o continente de onde o catolicismo ganhou o mundo torna-se cada vez mais secularista, com a religio perdendo espao na vida das pessoas. Some a isso o grande fluxo de imigrantes, que trazem consigo outras religies, principalmente o islamismo. O resultado  especialmente claro na Frana. Em 1910, era o pas com mais catlicos no mundo. Passado um sculo, a participao de catlicos caiu de 98,4% para 60,4%. A ustria viu algo semelhante  tinha quase 90% e caiu para 63,5% em 2012. H sinais de que o mesmo pode estar comeando a acontecer na Irlanda, Polnia e Itlia, onde o catolicismo ainda  fortemente ligado  identidade nacional, mas est perdendo fora.  o que a Cruzada de Francisco vai tentar estancar. 

FRICA
Enquanto a Igreja mngua na sua antiga sede, ela continua crescendo no continente mais pobre do mundo, graas ao trabalho dos missionrios, que muitas vezes ocupam o lugar do Estado.

OS FIIS nos ltimos 100 anos
Quantos catlicos so africanos
1910 1%
2010 16%

Quantos africanos so catlicos
1910 1%
2010 21%

O CLERO 2010
39,5% Padres; 18,5% Frades e Monges; 28% Freiras e Monjas; 30,9% Seminaristas. Diconos nmero inexpressivo.

O CONTINENTE ONDE A IGREJA MAIS CRESCE
frica Subsaariana  a ltima fronteira do catolicismo  o nico lugar alm da sia onde a religio cresce. A fora catlica l est em ocupar buracos deixados pela fragilidade das instituies. Num continente onde os governos so incapazes de prover educao e sade, a Igreja mantm 55 mil escolas, vrias gratuitas, 20 universidades e 16 mil centros mdicos e hospitais. Isso explica por que a JMJ recebeu tanta gente da Repblica Democrtica do Congo, o pas com o pior ndice de desenvolvimento humano e menor renda do mundo  e a maior populao catlica da frica. Em parte, o crescimento do catolicismo na frica se deve ao Conclio Vaticano 2 (1962-65), que permitiu o uso de idiomas africanos nas missas e a incorporao de canes e danas tradicionais de cada comunidade aos servios religiosos. Um exemplo  a Alleluya Band, do Malawi (pas que, em renda per capita, s ganha da R.D. Congo), que passava batucando em meio  concentrao de fiis em Copacabana. Os 15 membros conseguiram doaes para chegar a Roma, e l fizeram 40 apresentaes para juntar os 15 mil euros necessrios para a viagem ao Rio. 

AMRICAS
A maior populao catlica do mundo  a da Amrica Latina  est em declnio, por causa da competio com os evanglicos. Enquanto isso, a Igreja norte-americana luta contra escndalos sexuais.

Os fiis NOS LTIMOS 100 ANOS
Na Amrica Latina
Quantos catlicos so latino-americanos
1010 24%
2010 39%

Quantos latino-americanos so catlicos
1910 90%
2010 75%

Na Amrica do Norte
Quantos catlicos so norte-americanos
1910 5%
2010 8%

Quantos norte-americanos so catlicos
1910 16%
2010 26%

NOS EUA
Quais os maiores problemas da Igreja?
34% abuso sexual/pedofilia
9% falta de credibilidade
7% no moderna
7% perda de fiis

NOS EUA
Qual deve ser a prioridade da Igreja para ajudar a sociedade?
27% ajudar os pobres
11% prover valores morais
9% espalhar a religio
7% apoio emocional

O CLERO
Padre no mudou; 3.6% Frades e Monges; 7% Freiras e Monjas; 1,9% Seminaristas; 36% Diconos (So os nicos que podem se casar)

COMO SO OS CATLICOS NORTE-AMERICANOS
10% dos americanos adultos so ex-catlicos
2,6% dos americanos so convertidos de outras crenas para o catolicismo

Identificam-se fortemente com a religio
1974 46%
2012 27%

Vo pelo menos uma vez por semana  missa
1974 47%
2012 24%

51% Defendem a legalizao do aborto
15% Consideram imorais os mtodos contraceptivos
52% Defendem o casamento de pessoas do mesmo sexo

Fonte: Pew; DataFolha

Os jovens da JMJ so a favor
Da camisinha 65%
Da plula 53%
Da plula do dia seguinte 32%
Legalizao da unio igualitria 25%
Legalizao do aborto 22%
Mulheres no sacerdcio 36%
Padres com famlia 29%

AO NORTE, ESCNDALO, AO SUL, EVANGLICOS
H dois cenrios bem diferentes na Amrica do Norte e na Amrica Latina  mas em ambos a Igreja perde importncia. Nos EUA, uma em cada trs pessoas que cresceram no catolicismo abandona a Igreja, e a principal razo  o sexo, segundo o psiquiatra e ex-padre americano Richard Sipe, especialista em abusos sexuais do clero. Cem mil americanos j denunciaram que foram alvos de padres pedfilos. E, como estima-se que 80% das vtimas nunca denunciem o abuso, o nmero real pode chegar a 500 mil. Apesar disso, a populao de catlicos nos EUA se mantm constante: 25% dos americanos.  que, enquanto catlicos descendentes de irlandeses, italianos e poloneses abandonam a Igreja, seus lugares so ocupados por novos imigrantes catlicos vindos da Amrica Latina Mas, ao sul do Rio Grande, algo diferente vem acontecendo. Enquanto a Amrica Latina exporta catlicos, ela importa dos EUA as igrejas evanglicas neopentecostais. Assim o antigo monoplio catlico deu lugar a um mercado religioso competitivo que busca agressivamente por novos adeptos, seja pela TV, seja caminhando por bairros, presdios e favelas. Essa competio causou a maior perda de fiis no mundo catlico. E o caso mais extremo disso  o Brasil [veja na prxima pgina]. 

BRASIL
O declnio do catolicismo  assustador  maior do que em qualquer outro pas. Em 1950, 95,7% dos brasileiros eram catlicos, hoje so s 57%. Ainda assim,  a maior populao catlica do mundo.

F E GRANA
O catolicismo permaneceu forte entre os muito pobres e os mais ricos, enquanto as igrejas neopentecostais conquistaram as faixas intermedirias de renda.

J votou em candidato recomendado pela igreja
CATLICOS 5%
EVANGLICOS NEOPENTENCOSTAIS 18%

xodo rural, divrcio, violncia e f
A urbanizao no Pas explica a exploso evanglica  mais cidades significa mais periferias, que so terreno frtil para essas Igrejas. Ainda mais com a criminalidade crescendo.

COMO PENSAM E AGEM OS FIIS BRASILEIROS
No Brasil, catlicos tendem a ser mais liberais do que evanglicos. Mas isso tem um limite: o aborto.

So contra a descriminalizao do aborto
72% evanglicos neopentecostais
65% catlicos
75% catlicos JMJ

So contra a unio de pessoas do mesmo sexo
63% evanglicos neopentecostais
36%catlicos
67% catlicos JMJ

Quanta dinheiro do por ms  igreja?
R$ 70 evanglicos neopentecostais
R$ 23 catlicos
R$ 86 catlicos JMJ

Quantos vo mais de uma vez por semana  igreja
17% catlicos
63% evanglicos neopentecostais

Acham que lderes religiosos devem se candidatar a cargos polticos
Catlicos 25%
Evanglicos neopentecostais 43%

O PAS QUE MAIS PERDE CATLICOS NO MUNDO
Dos brasileiros, 28% so evanglicos. Em 1950, eram 3,4%. O que explica o crescimento? Bom, desde 1500 a Igreja Catlica manteve seu monoplio espiritual no Brasil. "E, como todo monoplio, tornou-se grande e preguioso", diz Roger Finke, professor de Estudos Religiosos da Universidade Estadual da Pensilvnia, nos EUA. Enquanto isso, o Brasil mudou. De 36,2%, a populao urbana subiu para 75,6% entre 1950 e 1991. O resultado foi a formao de periferias sem emprego, sem lazer, sem servios pblicos e sem as relaes familiares e comunitrias que as pessoas tinham em seus lugares de origem. Assim se formou um enorme vcuo espiritual que a Igreja Catlica  imobilizada pelo seu gigantismo burocrtico e acomodada em seu monoplio  no conseguiu preencher. Por outro lado, os evanglicos tm muita agilidade para montar igrejas, formar sacerdotes, ocupar espaos na mdia e moldar uma teologia de acordo com as necessidades de cada nicho de mercado. A pobreza  insuportvel? Evanglicos criaram a Teologia da Prosperidade, segundo a qual Deus d o que o fiel desejar (incluindo dinheiro e sade), desde que ele tenha f. A marginalizao deu espao para a criminalidade e para as drogas? Evanglicos oferecem um caminho para a reabilitao. "Hoje h um livre mercado espiritual na regio, onde empresas novas e agressivas vendem os Evangelhos com linguagem mais atraente e apoio social s comunidades", diz Finke. Para combater essa tendncia, a cruzada do papa Francisco vai valorizar a Renovao Carismtica  a resposta catlica ao neopentecostalismo, a la Padre Marcelo Rossi. "Nos anos 70, incio dos 80, eu no podia nem v-los", admitiu Francisco enquanto voltava de avio do Rio para Roma. "Agora, vejo que esse movimento faz muito bem  Igreja." 


